Uma jornada através da arte: atividades produtivas que geram autoestima e ressignificação de vidas

Visitação às oficinas de artesanato da Cornélia Vlieg permite conhecer o trabalho realizado nos projetos da entidade

(Por Ariany Ferraz)

Cores, contornos e beleza que enchem os olhos, em formatos de vitrais, bonecas, móveis, itens de papelaria, mosaicos, ladrilhos e muitos artigos de decoração. Foram mais de 700 produtos, fruto das oficinas de artesanato da Associação Cornélia Maria Vlieg, em Campinas, que puderam ser contemplados pelo grupo de visitação “Melhor Idade” do município de Ipeúna/SP. Uma nova forma de geração de receita, divulgação e reconhecimento do trabalho de mais de 300 atendidos no programa de “Inclusão social, reabilitação profissional e geração de renda” da Cornélia. A Associação tem aberto as portas do espaço para que todos possam conhecer o trabalho realizado nas 13 oficinas de artesanato.

A Associação Cornélia Maria Vlieg é uma organização sem fins lucrativos, parceira da Fundação FEAC,  que recebe apoio institucional através do Programa Enfrentamento a Violências. Atua desde 1993 na reabilitação psicossocial de pessoas que têm transtornos mentais e também na promoção da integração socioeconômica, profissional e cultural de pessoas em situação de vulnerabilidade ou risco social.

Para se encantar

Com a visitação, além de conhecer o Armazém das Oficinas, loja que reúne todo artesanato produzido, é possível ter contato com muitas histórias vividas no projeto social. Assim, o Grupo Melhor Idade pôde realizar um passeio repleto de história, sustentabilidade e compromisso social.

Fernanda Sanchez trabalha na administração do CRAS de Ipeúna e coordenou a visita. Ela compartilhou o sentimento de encantamento dos participantes.  “É muito interessante o trabalho desenvolvido, eles não acreditavam que seria possível desenvolver algo tão formidável”, comentou.

A Associação Cornélia  já costumava receber visitas de estudantes, mas foi no final do ano passado que viram a oportunidade de profissionalizá-las e torná-las  uma atividade educativa e de lazer, estruturando o passeio com diversos momentos, conta Cleusa Cayres, diretora da entidade. “Já vieram pessoas de outras cidades como Avaré, Holambra, Ipeúna… Fazemos uma recepção com café, apresentação do espaço, explanação e visitação às oficinas, um intervalo para almoço em nosso restaurante próprio e finalizamos com a ida à loja”, explica Cleusa.

Conhecer as técnicas de produção manual fascinou a visitante Vera Lúcia Ortolan, 69 anos. Ela conta que se surpreendeu, pois não esperava tamanha organização e beleza nos materiais produzidos. “Eu amei, vi coisas que nunca tinha visto, como a oficina de papel”, suspirou.

Economia solidária e cidadania: bem-estar físico, psíquico e social.

As oficinas têm por objetivo garantir autonomia das pessoas por meio da inclusão socioprodutiva que além de gerar  renda, as afasta das situações de violência. Através dos projetos “Núcleo de Oficinas de Trabalho (NOT)” e “Oficinas de Trabalho para pessoas adultas em situação de rua”, são acolhidas  pessoas com transtornos mentais e pessoas em situação de rua, ambas encaminhadas pelos serviços de saúde e de assistência social.

“O trabalho desenvolvido pela entidade traz um olhar integral sobre o ser humano e suas necessidades, construindo um ambiente socialmente justo e sustentável ao incorporar preceitos da economia solidária no cerne das suas ações”, avalia Natália Valente, técnica de referência do Programa Enfrentamento a Violências.

Depois de um surto aos 16 anos, Lucenir Maria de Oliveira, 55, chegou ao Cândido em 1991. Desde então, participou por 9 anos da oficina de culinária e há 4 está na oficina de papel. “É muito bom pra mim porque eu não fico em casa sem fazer nada. É importante porque a gente se arruma, pega o ônibus, vê gente e ocupa um espaço. Tem também muita harmonia com os amigos e funcionários”, afirma Lucenir. A monitora Roseclei dos Santos, que trabalha há 21 anos na instituição, avalia a importância das atividades, “Na maioria das vezes eles ficam em casa sem nenhuma atividade e ficam depressivos. Aqui eles têm apoio tanto psiquiátrico quanto psicológico, além do trabalho que lhes dá um rendimento financeiro”, destacou.

Mais do que proporcionar o convívio social, as oficinas são um exercício de cidadania que a partir da capacitação auxilia as pessoas a se reorganizarem e adquirirem autonomia. Há 25 anos na instituição, Silvio Burza, 76 anos, acompanhou o início da oficinas e sua evolução até a configuração atual. Hoje trabalha no café da loja e avalia que o envolvimento profissional dá outro sentido à vida, rompendo alguns estigmas da sociedade. “É gratificante porque você tem contato com o público, interagindo com a sociedade. Esse trabalho nos engrandece, a gente acredita mais em si mesmo e as outras pessoas também”, relatou.

Em uma das salas é possível ver lindas produções em tecido, carteiras artesanais, bonecas, fuxico e bordados. Elke Cristina, 42 anos, apresenta as peças para o grupo de visitantes. Há 4 anos na oficina de tecidos, ela explica que depois de algumas internações começou a participar da oficina para sair de casa, da ociosidade, e percebeu uma melhora tanto na sua saúde quando no repertório social e profissional. “Minha vida mudou completamente. Hoje eu consigo trabalhar e fazer todas as minhas atividades. Consigo ter domínio sobre mim, faço amigos, converso. Eu cheguei aprendendo e hoje eu consigo ensinar muitas pessoas que estão aqui”, disse.

O Cornélia executa também o “SOS RUA”- Serviço Especializado em Abordagem Social (Adulto) que trabalha  para identificar famílias e indivíduos em situação de rua, que estão em  risco pessoal e social com direitos violados. O Serviço se dedica ainda a identificar a natureza das violações, as condições em que vivem, estratégias de sobrevivência, procedência e projetos de vida com vistas ao acesso a rede de serviços e benefícios. A construção de processos de saída das ruas é um dos objetivos do SOS Rua que está integrado aos demais projetos, pois na maioria das vezes as pessoas precisam de atendimento psicológico e os serviços da rede acabam encaminhando para as oficinas.

“Tivemos um atendido que veio do projeto morador de rua. Ele ficou 3 anos na oficina agrícola e se especializou em jardinagem. Depois de ser contratado por uma grande companhia internacional, ele conseguiu a estabilidade financeira que permitiu restabelecer os vínculos com a família e retomar os estudos. Ele fez um curso universitário de Serviço Social. Após um estágio remunerado retornou ao Cornélia Vlieg para uma vaga de trabalho voltada ao mesmo projeto e foi contratado”, compartilhou Cleusa, emocionada ao relatar a história de superação que bem ilustra o propósito da instituição.

Enfrentamento a Violências

O Programa Enfrentamento a Violências é uma iniciativa da Fundação FEAC que investe na mitigação dos impactos das violências e no enfrentamento para romper os ciclos que as perpetuam com objetivo de promover o bem-estar e a cultura de respeito, empatia, tolerância e paz.

Saiba mais sobre a visitação:

A visitas devem ser previamente  agendadas. São monitoradas por profissionais responsáveis  pelas oficinas  de trabalho.

Mais informações: (19) 3251-9677

http://armazemoficinas.com.br/novo/

2018-04-19T15:31:16+00:0019 de abril de 2018|Categories: NOTÍCIAS|Tags: |