Transformar a gestão e desenhar soluções para superar desafios

(Por Ariany Ferraz)

“Descortinou um universo gigantesco que eu não conhecia. Sou da época da filantropia, da coisa mais informal e hoje funciona diferente, o trabalho é mais profissional. Fui descobrindo ferramentas e hoje nós somos outra entidade”, revelou Raquel Martins, que faz parte da diretoria do SPES (Serviço Social da Paróquia São Paulo Apóstolo). Ao participar do projeto Gerir, Raquel contou que muitas mudanças positivas puderam ser realizadas aperfeiçoando o trabalho da instituição. Em sua segunda edição, o Gerir, iniciativa que faz parte do Programa Qualificação da Gestão de Organizações da Sociedade Civil (OSC) da Fundação FEAC, capacitou 43 profissionais de 35 instituições de Campinas.

Com objetivo de contribuir com boas práticas de gestão para ampliar os impactos das OSC, o Gerir propõe qualificar o trabalho das instituições que ao adotarem ferramentas e processos mais assertivos podem inovar e fortalecer a atuação no terceiro setor. A cada edição, são abertas 50 vagas, gratuitamente ofertadas, para profissionais e dirigentes de OSC.  As duas edições já realizadas resultaram em 31 encontros, com 248 horas de formação, 87 participantes de 52 organizações diferentes.

Incentivar a reflexão, fomentar o diálogo e a articulação, estimular transformações sociais que impactem pessoas e comunidades. Com este norte, o projeto Gerir atua para que as organizações se aprofundem em temas como planejamento institucional, objetivos estratégicos claros, plano de trabalho, gestão financeira eficiente, desenho de projetos efetivos e transparência. “Cada vez mais, a sociedade exige resultados que dependem de boas práticas de gestão”, destacou Sílnia Prado, líder do Programa Qualificação da Gestão. Assim, com a estrutura programática da primeira edição aprimorada, abordando todas as questões principais que permeiam as atividades e os processos das organizações, o Gerir foi dividido em quatro módulos chave: Gestão Estratégica Financeira, Planejamento Operacional, Implantação e Comunicação de Resultados.

“Existe a mudança de paradigma no terceiro setor, saindo do assistencialismo, com um caráter de profissionalização cada vez maior. Isso é um processo que depende da mudança de cultura das pessoas e exige que quem está à frente da gestão tenha mais conhecimento e capacitação”, relatou Diego Sampaio, coordenador na Obra Social São João Bosco. Ele conta que o Gerir, além de proporcionar um conhecimento amplo sobre a complexidade do funcionamento de uma instituição e o trabalho da gestão, incentivou a instituição a pensar de forma mais estratégica. “Estamos estruturando um plano de ação para o próximo ano, pensando em projetos mais inovadores e que tenham mais impacto para os atendidos e sociedade, inclusive para captar mais recurso. Também estamos motivando gestores, trazendo ideias novas, que mudem a maneira de ver o trabalho que a gente desenvolve”, afirmou Diego.

“A gente precisava sair dessa inércia e estava precisando de mais energia, principalmente financeira”, apontou Raquel Martins que atua como segunda tesoureira no SPES. Ela afirmou que participar do Gerir foi fundamental para provocar transformações significativas. “Não usamos todas as ferramentas ainda, mas já aplicamos controle, prestação de contas, tudo inspirado no Gerir. Começamos a aplicar a planilha financeira e nossa contabilidade ficou ultra transparente, do dinheiro que entra, como e para onde vai. Foi super importante para o financeiro!”, completou.

Ela explicou que a comunicação também foi melhorada pois não havia o costume de divulgar os projetos e tudo ficava muito restrito aos alunos e pais. “A transformação da entidade é nítida, mudou muito! Agora temos um site, mídias sociais, estamos fazendo jantar beneficente e ações em que engajamos a comunidade. Vimos que a comunidade precisa saber o que a gente faz para confiar no nosso trabalho e ter motivação de participar”, esclareceu Raquel.

Uma caminhada de aprendizado coletivo

Os participantes do Gerir foram estimulados a refletir sobre práticas e processos para que atuem de forma sustentável e construam as soluções para problemas sociais atuais e complexos. Os primeiros encontros abordaram questões financeiras com os subtemas segmentação, unidades de negócio, estrutura de custos e aspectos legais. O módulo de Gestão Estratégica Financeira contou com os palestrantes Geraldo Figueiredo Filho e Juliana Furini.

Conteúdo que fez a diferença para Sandra Navarro, coordenadora técnica e financeira do Lar Evangélico Alice de Oliveira. Ela comentou que a entidade não tinha controle de gastos e que uma série de ferramentas foram descobertas na formação, impactando em mudanças robustas na instituição. “Hoje já temos uma outra estrutura, com planejamento financeiro, principalmente. Nunca havíamos participado de um curso de gestão assim e agora estamos colocando várias coisas que aprendemos em prática. Me sinto mais preparada, com certeza!”, contou.

Já o segundo módulo de Planejamento Operacional tratou da elaboração de projetos, editais de chamamento, plano de trabalho e políticas públicas. Nesta etapa, além de aprender a escrever bons projetos, realizar uma leitura de edital mais atenta e crítica, conhecer a fundo leis e oportunidades, democratizando o acesso às parcerias, os participantes puderam refletir mais sobre planejamento.

Gisele Karina Santana, professora há 10 anos nessa área, falou sobre contratualização pública e apontou que é no planejamento que estão os maiores obstáculos. “Existe uma dificuldade com diagnóstico, entender o que se quer transformar, onde está e onde quer chegar. Então se vê de fato que há uma carência em aprofundar a capacitação em planejamento, que é o pontapé inicial para o sucesso de uma boa parceria. É dele que irão resultar todas as outras fases. A administração vai monitorar e avaliar se o que estava no plano está dando certo e prestar contas em cima do que foi planejado”, avaliou.

Ela ainda ressalta que o Gerir, além das reflexões, incentivou a articulação para propostas de mudanças. “A partir das discussões, os problemas vão surgindo e também as propostas de soluções; e enquanto professores, o que fazemos é incentivar o grupo a se mobilizar em equipe”. Gisele salientou a importância do projeto e do formato dinâmico que reúne teoria e prática. “Tem sido um enorme aprendizado, eu saio com uma bagagem muito maior do que a que eu cheguei também. Faço palestras país a fora e não encontro nada como o Gerir em outro lugar. Dificilmente você tem organizações que promovem esse tipo de capacitação, desde o  momento de planejar até a prestação de contas”, apontou Gisele.

Nessa etapa, também compartilharam conhecimentos a equipe da Fundação FEAC: Leandro Pinheiro, Lincoln Moreira e Cláudia Chebabi, respectivamente superintendente socioeducativo e gerentes de Assistência Social e Educação. Na sequência, o terceiro módulo de Implantação trouxe questões sobre Execução técnica, Execução financeira, Gestão de equipes e de voluntários. Contou também com a colaboração de facilitadores do quadro de colaboradores da FEAC: Ednalva Lima,  Joyce Setubal, Maria José Diniz e Marcela Doni, das áreas de Recursos Humanos, Assistência Social e Voluntariado, além dos palestrantes Aline Fidelis, Carol Freire e Jader Siqueroli.

“As organizações precisam ter conhecimento amplo para agir frente aos desafios”, disse Aline Marques Fidelis, advogada especialista da área trabalhista. Ela apresentou diversas formas de contratação e remuneração previstas em lei que podem promover economia e otimizar os projetos das instituições. “O maior desafio é o orçamento e conseguir balancear custo. A capacitação então é algo extremamente importante, pois é como conseguimos que as organizações sigam em frente com seus projetos, cumprindo todos os objetivos. Então o Gerir está contribuindo para toda a sociedade”, declarou.

Para a coordenadora pedagógica do CAIS (Centro de Apoio e Integração do Surdocego e Múltiplo Deficiente), Eliane Proença, o módulo de implementação foi o mais importante. “Às vezes a gente tem um projeto e não avalia se está andando de acordo com o que foi escrito. E gerir o que a gente pensou foi muito importante”, comentou. Ela disse ainda que a equipe conseguiu, depois dos aprendizados, implementar a reescrita de um projeto. “Mas além de tudo isso, também foi muito rica a troca que houve entre as entidades, conhecer as pessoas, trocar as experiências, entender angústias e pensar juntos. Essa rede que se formou foi essencial!”, completou.

No último módulo, Comunicação de Resultados, foram desenvolvidos os temas Prestação de contas, Relatórios físico e financeiro, Accountability e Comunicação dos resultados. A etapa final contou com a participação dos palestrantes Nathália Bernardi, Gisele Karina Santana e Juliana Carina. “Foi um desafio produtivo e resolutivo! A comunicação do terceiro setor é diferente, mas o foco é o mesmo, é como ampliar a visibilidade e atrair potenciais apoiadores. A ideia é que saiam pensando em uma comunicação fora da caixa”, pontuou Nathália Bernardi, jornalista. Para ela, a assessoria prestada tanto aos palestrantes quanto aos participantes foi um diferencial do Gerir, que realizou uma imersão nos conteúdos com todo o suporte necessário. “Tenho certeza que sairão daqui preparados para assumir seus desafios e dar resolução para eles”, concluiu Nathália.

Para o participante Diego foi devido ao networking e rede que foi criada que o grupo conseguiu, recentemente, mobilizar as entidades de Campinas para construir um documento de impugnação a um edital lançado. Avaliado por todos e considerado inconsistente, colocava em risco a atuação das OSC no município, e desta forma o edital foi revogado com a ação do time. “O grupo articulado pretende seguir para exigir melhorias relacionadas às políticas públicas da assistência social”, indicou Diego.

“Quem acompanha os participantes desde o primeiro dia, tímidos e com participações pontuais, pode perceber uma transformação ao longo dos encontros,. Tornaram-se mais motivados e fortalecidos, articulados como grupo e assumindo uma postura crítica sobre quais desafios merecem ser enfrentados. A cada encontro surgiram novas histórias e antigas ideias saíram do papel, velhos problemas ganharam soluções inovadoras, articulações romperam barreiras e construíram pontes”, concluiu Sílnia.

Programa Qualificação da Gestão de OSC

O Programa Qualificação da Gestão é uma iniciativa da Fundação FEAC que investe para que organizações da sociedade civil adotem boas práticas com objetivo de operarem de forma autônoma, com processos de gestão eficientes, conformidade, regularidade e, principalmente, impacto social significativo.

 

2018-12-06T08:29:21+00:006 de dezembro de 2018|Categories: NOTÍCIAS|Tags: , , , , , , |
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