Jovens líderes fazem a diferença dentro da escola

(Por Ariany Ferraz)

Com diversos representantes das salas de aula reunidos, adolescentes chamaram a atenção para um tema delicado e muito relevante “Saúde mental: ansiedade, depressão e suicídio entre jovens”. Em mais uma intervenção na escola, os alunos da Escola Estadual Professora Maria Julieta de Godói Cartezani, carinhosamente chamada de Maju, na Vila Maria Eugênia, trabalharam a temática mobilizando a todos, por meio do projeto “Formação de Lideranças: Cidadania e Participação Popular”.

Iniciativa inédita no ambiente escolar, o projeto conta com apoio da Fundação FEAC no âmbito do Programa Desenvolvimento Local e é executado pelo parceiro técnico Centro de Educação e Assessoria Popular (CEDAP). No total, envolveu cerca de 40 participantes, de 15 a 17 anos, entre estudantes diversos e lideranças escolares de grêmios. Com encontros semanais de formação, os alunos do primeiro ao terceiro ano do ensino médio puderam desenvolver diversas atividades, participativas e interativas, com vídeos, dinâmicas, desenho, entre outros, contextualizando sempre os assuntos de forma prática. “Estávamos sempre produzindo alguma coisa para interferir na realidade do entorno deles: escolar, familiar e comunitária”, explicou a técnica do CEDAP, Karina Cappelli.

As intervenções em sala de aula impactaram cerca de 16 turmas com aproximadamente 520 estudantes sensibilizados. Dos vários temas de interesse como vestibular, trabalho, cidadania, direitos, entre outros, a saúde teve um destaque especial. Os alunos levaram casos pessoais, da família, da comunidade escolar e do bairro relatando problemas e dificuldades de acesso à saúde.

“A gente trouxe esse tema porque conhecíamos muitas pessoas com depressão”, contou Júlia Helena de 15 anos. O suicídio entre jovens, de 15 a 29 anos, ainda é a quarta causa de morte no Brasil. Assim como essa preocupante cenário, presente no dia a dia de muitos estudantes, foram identificadas outras situações de risco que envolviam a realidade dos adolescentes. A integrante Beatriz Brandão, 17 anos, afirmou que a atividade foi muito importante para conscientizar os colegas. Durante o trabalho foi distribuído um folheto, criado  pelo grupo, com números de serviços de ajuda. “Achei muito interessante essa ação, porque muitos alunos realmente precisam e não têm esses contatos. Isso encoraja e dá informação de grande contribuição”, avaliou Elaine Lolo, professora de Biologia, Ciências e Matemática.

“Escolhemos temas polêmicos, no sentido da necessidade, pois são coisas que acontecem dentro da própria escola, para orientar as pessoas como reagirem. Muitos alunos dentro do Maju sofrem com esse tipo de coisa e eles não sabiam como agir”, contou a jovem líder Sara Nolasco, 16 anos. Ela explicou que todas as ações foram sempre pensando na melhoria da escola e como ajudar os alunos, foram feitas várias reuniões em equipe, com pesquisas, construção coletiva, planejamento e estruturação das ações e materiais, além de interlocução com a direção da escola e professores.

Nos 15 encontro formativos foram abordadas questões sobre identidade, drogas, ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), direito ao trabalho, adolescência e atuação juvenil na sociedade, sexualidade e gênero, direitos sexuais e reprodutivos, abuso e exploração sexual, prevenção de DSTs e gravidez na adolescência.

Felipe Isidoro, 17 anos, contou que a atividade que mais se destacou para ele foi sobre o combate ao abuso e exploração sexual, pois ele sentiu que foi muito útil falar da prevenção e da autoajuda. “Eu aprendi a ter um conceito mais amplo sobre o que é ser um líder. Saber estar no lugar do outro, entender o que ele passa e as necessidades. Estou me formando e tô realizado”, revelou.

Superação e descobertas

Visando a diminuição de vulnerabilidade, o projeto buscou tornar os adolescentes capazes de exercer a liderança, mais articulados, participativos e atuantes na escola, e também  mais engajados e fortalecidos em uma rede de relações, preparados para uma atuação também mais expressiva em suas comunidades. “A adolescência é uma fase de formação, eles estão se constituindo como  pessoas e se eles conseguirem serem sensibilizados por alguns temas nesse momento, eles provavelmente terão um olhar mais crítico e mais generoso. E conseguimos ampliar essa atuação e o impacto que eles causam no mundo”, considerou Karina Cappelli.

“O projeto trouxe a oportunidade aos jovens de descobrirem e desenvolverem seu potencial de liderança, intervindo na sua realidade e de sua comunidade, colocando-os como personagens principais de suas decisões e escolhas”, ressaltou Natália Valente, técnica de referência do projeto da Fundação FEAC.

Karina contou que a questão da identidade foi fundamental para que o jovens se reconhecessem  como sujeitos de direitos. “Achei bem interessante, eu aprendi sobre os nossos direitos, de ter o ensino gratuito, ter atendimento médico, por exemplo, ou mesmo os direitos dos adolescente quando vamos procurar o primeiro emprego, de ter uma carteira assinada como jovem aprendiz. Achei bem educativo também a gente discutir sobre a saúde, violência sexual e prevenções. A minha mente abriu! Antes eu não pensava sobre todas essas questões”, disse Julia Costa, 16 anos.

Os resultados foram inúmeros para a equipe do Cedap, desde o aumento da criticidade dos alunos participantes do grupo, o empoderamento e fortalecimento da atuação grupal e individual. “Os ganhos foram eles se conseguirem ver como lideranças, ganharem autoestima, perceberem e passarem isso adiante”, constatou Luanda Jaqueto, técnica do CEDAP.

Foram trabalhadas habilidades principalmente de comunicação e de respeito à diversidade. Luanda relata que havia uma dificuldade muito grande de comunicação e de agressividade gerando conflitos entre os jovens, mas que foi  transformada pela formação. “Agora eles conseguem se colocar, tanto na escola quanto na família. Entendem que podem falar por meio de um acordo, de falar e não ser ridicularizado, garantindo espaço de respeito na fala”, pontuou.

“Foi importante por conta do protagonismo! De se sentirem empoderados, capazes de transformação, principalmente quando eles se predispõem a conversar com os outro alunos”, analisou Maria Beatriz Carboni, professora e coordenadora pedagógica da escola. Para ela, a fala de adolescente para adolescente torna mais fácil o contato e entendimento entre si. “Fez o grupo de professores também ter um outro olhar para os adolescentes e pensar que essa fala deles precisa ser ouvida”, completou.

“Foi muito importante para minha vida e principalmente para minha formação porque foi um grupo que me ensinou a lidar com os problemas. Eu me sinto bem feliz e realizada, pois agora eu sei  bem melhor como lidar em relação a liderança. Liderar não é mandar nas pessoas, é saber como ajudá-las”, concluiu a estudante Sara Nolasco.

Projeto Formação de Lideranças

Realizado também nas regiões do Oziel e Campo Belo, a iniciativa mobilizou mais de 2 mil pessoas em 35 encontros formativos, com 6 ações coletivas diversas de participação política e manifestações, além de 12 intervenções. Nestes territórios os participantes foram incentivados a atuar em suas comunidades buscando uma maior participação, representação e controle social nos espaços de discussão de políticas públicas e na defesa de direitos. Desta forma, além das capacitações participaram de espaços deliberativos e compuseram as intersetoriais, Conselho Municipal de Assistência Social (CMAS) e contribuíram com a elaboração  do Plano Municipal de Assistência Social.

Programa Desenvolvimento Local

Uma iniciativa da Fundação FEAC, o programa investe na mobilização comunitária com o objetivo de transformar territórios gerando bases para uma cidade mais inclusiva, acolhedora, eficiente e sustentável.

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