Jovens com Síndrome de Down lideram evento sobre inclusão no mercado de trabalho

(Por Ariany Ferraz)


Encontro dá visibilidade através dos relatos de trajetórias, desafios e superação

Sorridente e com brilho no olhar, Bianca Faria convida diversos jovens a subir no palco. Cheios de energia, motivados e com muitas histórias para contar, eles dão início ao II Encontro Bem-vindo ao Meu Mundo, realizado na Fundação Síndrome de Down (FSD) em Campinas. Emocionados por ter a voz e a vez de poder compartilhar suas experiências e expectativas, os jovens foram os personagens principais do evento que evidenciou o protagonismo de seus pares e marcou o início das atividades relacionadas ao dia 21 de março, em que se comemora o Dia Internacional da Síndrome de Down. O encontro contou com participação de entidades como o CEESD – Centro de Educação Especial Síndrome de Down (CEESD), da Associação para o Desenvolvimento Integral do Down (ADID) e Instituto Carpe Diem. FSD e CEESD são entidades parceiras da Fundação FEAC que recebem apoio institucional através de um novo modelo de investimento no âmbito do Programa MOB – Mobilização pela Autonomia.

Com o tema “Nós temos direitos de Ser respeitados e Felizes” o evento chegou em sua segunda edição, repetindo o modelo de sucesso da iniciativa que tem os usuários da FSD, participantes do Projeto Grupo Mundo do trabalho, à frente do encontro. Foram eles que decidiram organizar um dia especial para que pudessem contar suas vivências e trajetórias de vida e preparam tudo, desde a proposta inicial, elaboração de convites, busca de apoiadores, divulgação, definição das palestras, apresentações e atividades de apoio. “Eu acho fantástico, pois mostra a autonomia que eles passam a ter efetivamente”, afirmou Cláudio José Nascimento, presidente da Fundação.

O auditório lotado teve a oportunidade de experienciar o olhar de quem convive com a deficiência intelectual e vivencia na pele todos os desafios do crescimento profissional, desde os estudos até chegar ao mercado de trabalho. Com o apoio da assessora ao mercado de trabalho da Fundação Síndrome de Down, Paula Chagas, os participantes da mesa “Voltando a estudar: como estamos lidando com as exigências das empresas para crescermos na nossa carreira” relataram o histórico de vivências na escola, desde conquistas, como o bom desempenho nas matérias, e barreiras encontradas, como as dificuldades com os conteúdos, situações de bullying e o suporte recebido em situações assim. Em todas as histórias um ponto em comum, nada que não pudesse ser superado com a ajuda dos professores, colegas e, principalmente, da família. Luis Gustavo Vicentin, 20 anos, participante da mesa, deixou claro: “o apoio da família é fundamental”.

Os estudos e o caminho para o trabalho fazem parte da construção de uma identidade adulta e um passo importante para a independência. A reflexão evidencia que é preciso eliminar as barreiras na sociedade para que possam efetivamente estar incluídos, tanto no mercado de trabalho quanto no convívio social. Giovanna Marcondes, 21 anos, contou que não queria ficar em casa sem fazer nada e que queria abrir a mente. Hoje ela faz supletivo e um curso de massoterapia. “Eles são pessoas maravilhosas, carinhosas, inteligentes, que conseguem fazer tudo e só precisam de um pouco mais de apoio e muito amor, isso vai fazer diferença na sociedade”, observou Márcia Marcondes, mãe da Giovanna.

Aceitar limitações e abraçar capacidades

A FSD se preocupa muito com a inclusão da pessoa com síndrome de down dentro da sociedade “e chega uma determinada faixa etária que a melhor inclusão é através do emprego”, avalia Cláudio.  Além da realização profissional, a inclusão promove a participação na sociedade e gera autonomia. “Quando estive desempregada fiquei muito mal, eu ficava em casa vendo receita no computador e pensava: – isso não é para mim! Hoje estou trabalhando, namorando e muito melhor! ”, comentou entusiasmada Simone Cristina, 30 anos. Seu relato marcou a dinâmica da mesa “Perdi, mas conquistei: enfrentando desafios de voltar ao mercado de trabalho”. Na ocasião pontos como evolução após a escola, dilemas sobre recolocação profissional, qualificação e expectativas para o futuro foram os eixos trabalhados.

Caio Zanzine, 29 anos, veio de São Paulo, da ADID. Ele trabalhou com atendimento ao público na Pizza Hut, estudou no Senac e logo depois foi trabalhar em outra unidade da mesma instituição sendo Assistente de Gerente por 6 anos. “Com o trabalho eu venci os obstáculos na vida. Eu me sinto muito feliz agora”, disse. Em um novo momento, hoje ele está trabalhando na KidZania e conta que está no “melhor emprego da sua vida” pois adora crianças. Além de trabalhar, está estudando e faz Krav Maga. “Meu maior sonho é escrever um livro e ter mais autonomia”, completou Caio.

A inserção das pessoas com síndrome de down no mercado de trabalho é muito importante para que possam ser produtivos como todos os demais cidadãos. “É se sentir útil: uma pessoa que se integra socialmente como cidadão. Para meu filho foi fundamental para se desenvolver, ele amadureceu muito depois que começou a trabalhar e ficou muito mais feliz, pela autonomia, pelo salário e a responsabilidade”, relatou Marivone Zanzini, mãe do Caio.

Todos deixaram mensagens para incentivar outros colegas com deficiência intelectual que ainda não trabalham, fazendo convite a se empenharem e buscarem oportunidades. “O mais importante desse momento é eles poderem ter o espaço de fala e de escuta; e o evento vem contribuir para isso”, destacou Juliana Barica Righini, assistente social do Instituto Carpe Diem, que também trabalha com a empregabilidade em seus programas.

Mundo do Trabalho

Gerador de reflexões importantes, o Projeto Grupo Mundo do Trabalho surgiu em 2016 para oferecer um espaço qualificado que reúne jovens adultos com deficiência intelectual. A iniciativa promove o debate sobre o mundo do trabalho potencializando projetos de vida e gerando empregabilidade. O grupo ganhou proporções maiores e foi além, gerando a produção de conhecimento e autoconhecimento, abordando também questões de identidade, participação e conhecimento de seus direitos e deveres.

O desafio para estarem bem colocados no mercado de trabalho vai além de aumentar a participação com a inserção, mas também capacitar esses jovens e melhorar a qualificação dos trabalhos oferecidos pelas empresas, levando em consideração as potencialidades e não as incapacidades, pois muitas vezes são subestimados.

A Fundação tem um trabalho intenso de buscar oportunidades para que eles possam ser inseridos. O Serviço de Formação e Inclusão no Mercado de Trabalho prepara, desde 1999, as pessoas por meio de quatro programas: Curso de Iniciação ao Trabalho, Vivência Prática Profissional, Contratação CLT e Sócio Laboral. O primeiro curso trabalha questões iniciais relacionadas ao primeiro contato com o mercado de trabalho. Na etapa seguinte o “Vivência Prática Profissional” realiza o acompanhamento no período de estágio nas empresas. O terceiro passo é a Contratação CLT que atende necessidades das empresas mediando a inclusão formal. O último e quarto programa “Sócio Laboral”, realiza um acompanhamento extensivo em empresas parceiras da Fundação Síndrome de Down.

“Temos a preocupação de que a empresa esteja preparada, fazemos o trabalho de conscientização, para mostrar que essa pessoa tem algumas limitações, mas tem muito mais potenciais e isso precisa ser mostrado para essa equipe. O sucesso no trabalho não depende somente deles, mas daqueles que estão os recebendo e de que maneira eles vão poder ajudá-los”, concluiu Cláudio.

Para Regiane Fayan, líder do Programa Mobilização para Autonomia, as organizações da sociedade civil de Campinas que atendem as pessoas com síndrome de Down têm se dedicado em ações para a inclusão de seus atendidos no mercado de trabalho. “As ações envolvem as empresas, as pessoas com deficiência, a família e a sociedade. Dar visibilidade, apoio e promover ações para romper com os estigmas são essenciais para que haja uma efetiva inclusão”, conclui Regiane.

“Nós temos direitos de Ser respeitados e Felizes”

Ainda, no final do evento, foi discutida a questão do preconceito e dos estigmas vivenciados pelos jovens. Emocionados e indignados, narraram situações de preconceito, bullying e de como fizeram para enfrentar esses desafios. “Quando eu vou para academia, passo na rua e as pessoas me olham torto. Eu também sou cidadã. Precisa acabar com o preconceito!”, contou Mariana Amato.

Sobre o Programa MOB

O Programa Mobilização para Autonomia (MOB) é uma iniciativa da Fundação FEAC que investe em soluções com o objetivo de assegurar a inclusão efetiva das pessoas com deficiência. Se dedica a romper barreiras para que as pessoas com deficiência possam participar da sociedade e exercer plenamente seus direitos.

Mais informações:
Fundação Síndrome de Down – www.fsdown.org.br
Sobre os programas de empregabilidade:
http://www.fsdown.org.br/o-que-fazemos/formacao-e-insercao-no-mercado-de-trabalho/
Centro de Educação Especial Síndrome de Down – www.ceesd.org.br

 

Confira a Programação dedicada ao Dia Internacional da Síndrome de Down 

Fundação Síndrome de Down
2ª Amostra: Xilomundo
Exposição de xilogravuras e Monotipias realizadas pelos usuários do ateliê.
Data: 12/03 a 04/04
Local: Shopping Prado Boulevard – Av. Washington Luiz, 2480 – Vila Marieta – Campinas/SP
Evento gratuito 

Feira de Troca de Brinquedos
Data: 24/03
Horário: 10h às 12h
11h- Apresentação de teatro.
Local:  Praça do Coco
Rua José Martins, 738 – Barão Geraldo – Campinas/SP
Evento gratuito

Durante o mês de março
Pizza Me: 50% da venda da pizza de Calabresa será revertida para a Fundação.

CEESD
7ª Caminhada pela Inclusão

Para participar da caminhada basta adquirir a camiseta pelo telefone (19) 3795-4690, ou na sede do CEESD, localizado na Rua Ezequiel Magalhães, 99 – Vila Brandina – Campinas/SP.

Além da Caminhada, no momento da concentração o CEESD irá promover apresentações artísticas.
Data: 25/03
Horário da concentração: 9h
Local: Praça Arauto da Paz (Lagoa do Taquaral) – Av. Dr. Heitor Penteado – Jardim Nossa Sra. Auxiliadora, Campinas/SP

Empresas e Escolas
Agendamento com a instituição para palestras curtas e bate-papos para tirar dúvidas e sensibilizar a respeito da temática.
Durante a semana
Em horário comercial
(19) 3795-4690
Atividade Gratuita

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