Espetáculo desafia participantes e desperta potencialidades para toda a vida

O musical Alice no País das Maravilhas será apresentado em dezembro com a participação de 156 usuários de nove OSC de Campinas

(Por Ingrid Vogl)

Dedicação, persistência e vontade de fazer o melhor com alegria. Essa é a energia que se sente ao acompanhar os ensaios do musical Alice no País das Maravilhas, iniciativa que faz parte do projeto Arte e Cultura da Fundação FEAC. O espetáculo terá duas apresentações no Teatro Iguatemi Campinas nas noites de 17 e 18 de dezembro.

A apresentação do musical é o ápice de todo um processo iniciado em fevereiro de 2018. De lá para cá houve a publicação de um edital resultou na seleção de nove Organizações da Sociedade Civil (OSC) para participarem do projeto com suas respectivas modalidades artísticas desenvolvidas com os usuários; a escolha do tema – feita pelos próprios artistas; o alinhamento da proposta do espetáculo; preparação do repertório, das cenas e do roteiro. Desde abril, os 156 artistas que aceitaram o desafio de participar do espetáculo ensaiam com afinco. Mais do que se preparar para fazer uma apresentação impecável e cheia de emoção, os participantes estão vivenciando aprendizados que serão levados para a vida toda.

“A cada dia, artistas e educadores passam a se entender com um grupo único, com vínculos fortalecidos e laços de amizade estabelecidos. Se apoiam mutuamente e torcem uns pelos outros com aplausos e palavras de incentivo aos que estão em cena ensaiando. Individualmente, se desafiam e ultrapassam seus limites. Juntos são incríveis”, analisou Silnia Nunes, assessora técnica responsável pelo projeto Arte e Cultura.     

É assim que o grupo de 18 usuários da Sorri está experimentando pela primeira vez o desafio de subir em um grande palco para dançar e encenar o musical. Segundo Ester Barros, professora de dança e gerente executiva da Sorri, a desafiadora experiência está despertando o protagonismo e o empoderamento da turma, que ensaia todos os dias e até nos fins de semana para fazer bonito no grande dia.

Potencialidades

Já no primeiro exercício que definiu quem seriam os personagens com falas no espetáculo, o grupo criou uma peça baseada na história de Chapeuzinho Vermelho. Isso já revelou 12 jovens que ganharam a responsabilidade de decorar falas, encenar e dançar. E a responsabilidade com o espetáculo despertou habilidades que impactam na vida dos jovens.

“Na Sorri não existe ‘não consigo’, é preciso tentar. Então eles criaram a história a maneira deles, se organizaram para encenar e foi fantástico. E isso já foi muito bom, porque o que está sendo trabalhado e desenvolvido é a autoestima e o fortalecimento de vínculos entre eles. Toda essa evolução é fantástica. Eles aprenderam a se posicionar e se expressar para as famílias e dizer o que eles gostam e não gostam, estão mais articulados em suas conversas e na postura. E isso tem tudo a ver com nosso trabalho na Sorri, que usa a metodologia do protagonismo juvenil com foco na preparação para o mercado de trabalho”, afirmou.

Ester contou que o envolvimento do grupo com o musical é tão grande que a instituição criou horários extras para os ensaios, que acontecem inclusive nos fins de semana. “A repetição da ação auxilia na memorização, no caso dos usuários com deficiência intelectual. E as cenas e falas têm o toque deles. É fantástico todo esse processo pelo qual estão passando, de aprender e explorar seus potenciais. A gente não olha as limitações, mas sim as deficiências como características não limitadoras. E por isso, cobramos o melhor deles, porque no mercado de trabalho é assim. Isso os transformou: eles estão mais seguros, alegres, confiantes e se sentem valorizados”, disse.

 

Outro reflexo da participação dos jovens no espetáculo foi maior engajamento nas atividades oferecidas diariamente pela Sorri. “Eles estão mais empoderados dentro do grupo e começaram a se organizar para fazer eventos, festas, ajudar os colegas. Percebemos a proatividade nas atividades propostas nas oficinas que a Sorri oferece. E tudo isso é efeito da participação deles no Arte e Cultura”, disse Ester, que também ressaltou o apoio das famílias no sentido de valorizar o desejo dos jovens de participarem do musical e das ações nas quais se envolvem.

“Para mim é maravilhoso vê-los conquistando autonomia, independência, se empoderando e criando. Isso não tem preço. Apesar de desafiador, participar do espetáculo trouxe resultados de qualidade, e isso terá impacto em suas vidas futuramente”, concluiu Ester.

Empenho

Toda essa dedicação e empolgação pode ser percebida em uma conversa com os jovens, que têm orgulho de falar sobre suas experiências transformadoras.

Ao ser questionado sobre como está sendo participar do musical, Vitor Hugo Dias Ferreira, 21 anos, foi enfático. “Para mim mudou muita coisa. Eu erro várias vezes a coreografia nos ensaios, mas é assim que aprendo a me aperfeiçoar. O importante é não desistir. É preciso ter firmeza e resistência, ter dedicação e se entregar para fazer o seu melhor. E por todo meu esforço, eu me sinto importante e reconhecido”, afirmou o jovem que fará o papel de carrasco no espetáculo.

Em cima do palco, Julia Maria Barbosa, 19 anos, se transforma em uma das inúmeras Alices do espetáculo, e faz isso com segurança. “Quando eu era pequena, gostava muito de palco, mas era tímida. Vir para o teatro me deu alegria, tirou minha timidez e me trouxe coisas valiosas, como novas amizades com pessoas que estão no musical e são de outras entidades. A gente se ajuda e discute sobre as cenas. Eu me surpreendi comigo mesma, porque eu não sabia que eu ia conseguir um papel tão legal. Não sabia que tinha essa capacidade”, contou a jovem, que já pensa que suas descobertas pessoais irão ajudá-la em uma futura colocação no mercado de trabalho.

Espetáculo

O tema Alice no País das Maravilhas foi escolhido por votação dos artistas das instituições participantes do projeto em 2018. O clássico literário de Lewis Carrol publicado em 1865 conta a história de uma menina chamada Alice, que por meio de uma toca do coelho entra no País das Maravilhas, onde os animais e plantas podem falar. Ela passa a viver muitas aventuras com os habitantes deste mundo fantástico, que instigam Alice a refletir sobre si mesma e o mundo. Daniela Fischer é a diretora artística do espetáculo, que ganhou uma roupagem própria e foi criado coletivamente com todas as entidades. Cômico em várias cenas, o musical também traz reflexões diversas ao público.

Este ano, a seleção das entidades para o Arte e Cultura foi feita por meio de edital que, entre vários critérios, levou em conta um vídeo produzido sobre a modalidade inscrita. O processo revelou a variedade das práticas artísticas desenvolvidas em instituições que atendem diversos usuários. Ao todo, participaram 19 OSC que inscreveram 37 modalidades. Foram selecionadas nove OSC e o espetáculo terá a participação de 156 usuários de 10 a 75 anos.

As instituições selecionadas foram Programa Gente Nova – Progen (coral performático); Centro Espírita Allan Kardek – Educandário Eurípedes (teatro); Associação São João Vianney (dança); Instituto Semear (hip hop); Sorri Campinas (dança); Grupo Primavera (coral); Casa de Maria de Nazaré – Casa Hosana (danças urbanas); Centro Comunitário do Jardim Santa Lúcia (maculelê) e Associação Nazarena Assistencial Beneficente – ANA DIC IV (dança livre).

O musical multiartístico, intergeracional e inclusivo que visa propiciar a convivência e o aprendizado dos usuários de Organizações da Sociedade Civil integra o Arte e Cultura, um dos projetos do Programa Fortalecimento de Vínculos, uma iniciativa da Fundação FEAC que investe na qualificação de ações integradas de cultura, esporte e cidadania com o objetivo de prevenir o agravamento da vulnerabilidade social.

Saiba mais: https://www.feac.org.br/fortalecimentodevinculos/

Informações: (19)3794.3548.

 

2018-11-12T15:04:58+00:0012 de novembro de 2018|Categories: NOTÍCIAS|Tags: , |
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