Desconstruir para combater: a violência sexual e o papel da escola

Roda de conversa promovida pelo CPTI aborda violências sexuais com profissionais da educação

(Por Ariany Ferraz)

“Lidar com esse assunto exige algumas desconstruções”. Foi assim que a equipe do CPTI (Centro Promocional Tia Ileide) iniciou um bate-papo com profissionais da educação sobre o tema Precisamos falar sobre o abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes. O evento fez parte da programação da Semana da Educação, conectando importantes temáticas com educação para debater soluções e superação de desafios para diversos contextos sociais.

“Com iniciativas como essa que a gente começa a fomentar a discussão na escola sobre várias violências. Enquanto a gente não romper com alguns tabus, de falar sobre violência sexual e sexualidade, não vamos promover reais mudanças”, alertou Fabiana Taioli, Coordenadora Técnica do Serviço Especializado de Proteção Social à Família (SESF) do CPTI.

O CPTI desenvolve trabalhos de prevenção, além de executar o SESF e o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) atendendo famílias que tiveram seus direitos violados, entre elas a violência sexual contra crianças e adolescentes. Para a Fundação FEAC, a temática é foco de projetos de prevenção e combate através do Programa Enfrentamento a Violências.

“Por isso que o Programa Enfrentamento a Violências tem em seu cerne ações que visem o rompimento da naturalização e do ciclo dessa violência, através de ações com o foco informativo, preventivo e de combate a esta violação de direitos, apoiando ainda iniciativas que vão ao encontro dos nossos objetivos”, avaliou Natália Valente, técnica de referência do Programa.

Para entender o fenômeno, primeiro foram apresentados alguns conceitos de violência e cultura, analisando as estruturas sociais e valores que promovem a violência sexual como o adultocentrismo, patriarcado, capitalismo, classismo, racismo, machismo e LGBTfobia. A proposta: aprender a desconstruir modelos que são valorizados na cultura e que reforçam diversas relações de poder corroborando para as violências citadas.

“A ideia é compartilhar vivências, valores e situações cotidianas, culturais e sociais que na verdade promovem a violência sexual desde a infância. A intenção é de questionar fatores que cooperam para perpetuar essas violências”, explicou Caroline Cardoso, coordenadora técnica no CPTI. Ela aponta que a responsabilidade é de todos, como cidadãos, em combater essa realidade.

Todas essa questões refletem no perfil das vítimas. A questão da vulnerabilidade social foi indicada também como fator agravante, principalmente em casos de exploração sexual, quando ocorre a violência com relações de troca, obtenção de lucro ou benefícios.

Em Campinas, em 2017, a violência sexual vitimou 274 crianças e adolescentes, 65% de 0 a 11 anos e 35% de 12 a 17 anos, de acordo com as notificações da Secretaria Municipal de Saúde. Porém, grande parte dos casos não são notificados por medo, desconhecimento ou tabus. Cerca de 80% das vítimas são do sexo feminino e 58% dos eventos acontecem nas residências. Os números nacionais são ainda mais alarmantes, uma realidade cruel e que encontra ainda resistência para ser pautada e debatida por todos.

Educação e violência sexual

“Mais de 90% das crianças e adolescentes estão na escola. A escola precisa estar atenta a esses fenômenos sociais, ela vivencia tudo isso, a agressividade, o bullying e toda violência que está ali dentro. Toda escola tem pelo menos uma criança vítima de algum tipo de violência sexual e ela tem que aprender sobre encaminhamento, fluxos no município de Campinas e estratégias a serem usadas para prevenir”, ressaltou Caroline.

A educação é uma importante ferramenta para conscientizar e combater. E a escola tem um papel muito importante nesse contexto. Caroline aponta que as crianças geralmente contam essas situações de diversas maneiras e que a escola precisa estar preparada para essa escuta.

“O papel da escola é fundamental para trazer essa discussão  e os pais precisam saber que estamos atentos. Se a gente deixa de escutar as crianças e as mães, deixamos de cumprir nosso papel social. É muito importante acolher essa situação e entender que as crianças e os adolescentes precisam ter voz, e que nesse lugar de escola a gente consiga fazer essas reflexões”, destacou a participante Valéria Rudieri, diretora educacional do Centro de Formação Semente da Vida.

Caroline avalia que a maneira de prevenir violências sexuais é usar estratégias educativas que busquem romper com determinados paradigmas. Ela conta que a experiência a partir da atuação  da instituição possibilitou criar estratégias de trabalho com crianças e adolescentes desenvolvendo atividades que os fortaleçam para lidar com esse tema. “O jeito de fazer isso é utilizar metodologias próprias da educação, é contar histórias, falar de sexualidade. A gente procura conversar sobre esse assunto com a criança e com a família também, através das metodologias mais adequadas”, observou Caroline.

Foram ilustradas algumas metodologias possíveis de trabalho nas escolas, de abordagem de forma lúdica, com dinâmicas, músicas, histórias que educam sobre sexualidade.  Assim, uma criança, por exemplo, toma consciência do seu corpo, entende o que é consentimento e sabe quando e para quem pedir ajuda.

“Essa é uma realidade do ambiente escolar. Existe um desconhecimento do fluxo sobre como tratar quando tem um caso dentro da escola. A expectativa foi informar, orientar sobre o que fazer, como contribuir, prevenir e a importância de olhar não só enquanto escola, mas como parte integrante da sociedade”, avaliou Raika Aquino, integrante da equipe organizadora da 9ª Semana da Educação de Campinas – projeto do Programa Educação da Fundação FEAC.

 

Durante o debate os participantes puderam compartilhar casos presenciados em seus cotidianos profissionais e foram orientados sobre como identificar outros que são suspeitos e encaminhar. Foi citado, além do Conselho Tutelar, o SISNOV/SINAN de Campinas, Sistema Intersetorial e Interinstitucional de Notificação sobre Violências em que são registrados os casos suspeitos ou confirmados dos diversos tipos de violência.

“Sabemos que é uma realidade da comunidade onde atuamos. Enquanto profissionais devemos saber as ferramentas que temos, seja de sistema público de saúde, rede de apoio para vítima e de denúncia”, compartilhou ainda Valéria. “Já me deparei com uma situação suspeita. É sempre bom saber como agir e ajudar nesse casos”, contou Samara Lima, monitora no Espaço Infantil Corrente do Bem e também estudante de pedagogia.

“É um assunto que precisa ser muito abordado! Às vezes o aluno tem esse problema, não consegue pedir ajuda, nem falar com alguém, e , muitas vezes, não tem o apoio da família. O que foi passado hoje foi uma luz, sobre o que devemos fazer e como. Saio daqui com mais conhecimento e condições de ajudar”, revelou Cláudia Amaral, diretora da Escola Estadual Jornalista Roberto Marinho Campinas. “A gente sai daqui com vária sementinhas plantadas, os participante vão se propor e transmitir esse conhecimento para as equipes”, concluiu Raika.  

As profissionais Caroline e Fabiana encerraram a roda de conversa com um convite para que o público presente participasse do grupo de trabalho intersetorial que acontece toda primeira quinta-feira do mês, das 10h30 às 12h, liderado pelo CPTI, para debater a temática e ações de combate e prevenção às violências sexuais contra crianças e adolescentes.

Programa Enfrentamento a Violências

É uma iniciativa da Fundação FEAC que investe na mitigação dos impactos das violências e no enfrentamento para romper os ciclos que as perpetuam com objetivo de promover o bem-estar e a cultura de respeito, empatia, tolerância e paz.

Semana da Educação

Com 26 atividades gratuitas entre palestras, oficinas, exposições, mesas redondas, apresentações culturais e outras, a 9ª Semana da Educação de Campinas aconteceu de 22 a 29 de setembro em vários pontos da cidade. O tema da edição 2018 do calendário de eventos foi “Conectar educação, superar desafios”, pensando nas múltiplas conexões que a educação faz com áreas como economia, saúde, segurança e cidadania, contribuindo para a transformação de uma sociedade mais inclusiva e igualitária.

A Semana da Educação é um projeto do Programa Educação da Fundação FEAC. A iniciativa pretende mobilizar a sociedade para o debate sobre os diversos temas da educação energizá-la em prol de uma educação pública cada vez melhor. A edição 2018 da Semana da Educação tem patrocínios da Fundação Educar DPaschoal e Iguatemi Campinas.

Programa Educação

O Programa Educação é uma iniciativa da Fundação FEAC que investe em projetos que contribuem para uma educação pública cada vez melhor, como pilar fundamental para o desenvolvimento da sociedade.

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