Da instituição para a vida: rompendo barreiras territoriais

(Por Ariany Ferraz)

É com o toque na pele que a mãe Geraldina Maria Merli conversa com o filho Rodrigo, 27 anos, surdocego. Há 12 anos o jovem é atendido pelo CAIS (Centro de Apoio e Integração do Surdocego e Múltiplo Deficiente), entidade parceira da Fundação FEAC. “Eu estava desorientada e daí uma assistente social chegou, me deu orientação, me encaminhou para escola e foi uma benção!”, contou Maria. Ela conta que a participação no projeto ‘Do Cais para a Vida’, há um ano, auxiliou muito o rapaz. “Ele vai com a professora até a praça, ela mostra as árvores, a textura do chão, muda de direção para reconhecer o espaço. Ele gosta muito e se diverte! Foi mais uma oportunidade também para várias crianças”, destacou Maria.

Essa é uma das muitas histórias dos muitos atendimentos realizados pela instituição que atualmente é a única no município e região que atende a população surdocega e tem enfoque na deficiência sensorial múltipla. Campinas possui mais de 300 mil pessoas com deficiência. Se essa população já enfrenta constantemente uma série de barreiras em relação à inclusão, quando se trata da surdocegueira e múltipla deficiência a situação é ainda mais desafiadora. Por isso, o projeto do ‘Do Cais para Vida’ propõe incluir esse público no espaço institucional e territorial, realizando atendimentos em casa e sensibilizando também a comunidade para essa realidade.

Para o jovem Leonardo, 28 anos, com pouca visão e comprometimento intelectual, os progressos foram muitos.“Está sendo maravilhoso! O Leo tá muito mais independente! Agora ele faz um monte de coisas sozinho, como vestir e tirar uma camiseta, ir no banheiro, ligar o chuveiro e tomar banho, comer”, relata a mãe  Benedita Andrade. Ela conta que o atendimento domiciliar tem contribuído para muito progressos no cotidiano, além das atividades de caminhada, passeios a diversos locais, trabalhos de arte, entre outros.

“Depois que comecei a levar o Leonardo na praça do bairro onde ele mora, a mãe também começou a levá-lo em outros momentos e começou a conhecer as pessoas que também frequentam a praça”, comentou Lilia Gonzaga Cardoso, professora de Orientação e Mobilidade do projeto.

Lilia trabalha com jovens, geralmente surdocegos ou múltiplos deficientes sensoriais, explica que primeiro é feito um trabalho no território da própria instituição e num segundo momento no território de residência da pessoa. “Eles ficam muito dentro de casa sem costume de sair. Precisamos trazer as famílias para junto, estimular que frequentem novos locais”, apontou. “Temos um usuário que estávamos indo a cada 15 dias em casa para o atendimento, e deu tão certo que vamos passar a ir toda semana agora”, contou animada.

A experiência também resulta em uma visibilidade da inclusão na comunidade e sociedade como um todo. A professora conta que em um passeio ao borboletário de Campinas foi percebida a falta de acessibilidade para os cadeirantes, o que promoveu dias depois a construção de rampas no local.

Para a vida

Eliane Proença, coordenadora pedagógica no CAIS, explica que o projeto já era realizado com poucos adolescentes, mas este ano, em parceria com o Programa Mobilização para Autonomia (MOB), da Fundação FEAC, foi expandido e ampliado para mais pessoas, incluindo crianças e suas famílias. “As famílias têm dificuldade de levar as crianças nos espaços públicos porque sentem o olhar do outro, de julgamento e preconceito. Queremos abrir as portas e proporcionar segurança para que possam usufruir dos espaços públicos. É uma coisa para vida!”, observou. Ela conta ainda que um depoimento de uma mãe marcou o projeto. Ela relatou que uma das visitas a um parque foi o primeiro passeio em família depois de muito anos, mobilizando o pai que, pela primeira vez, saiu com o filho.

Beneficiando mais de 40 usuários, a iniciativa busca habilitar o usuário considerando suas potencialidades individuais, para proporcionar melhor qualidade de vida. Além de contribuir para participação da pessoa na comunidade, trabalha em ações que diminuam as barreiras atitudinais que geram isolamento social. Desta forma, a equipe realiza palestras, visitas a instituições de educação e saúde, entre outras intervenções, para conscientizar a comunidade. “A gente quer que a sociedade esteja preparada para recebê-los”, enfatizou Paula Ramos, coordenadora do projeto. Ela destaca a importância de capacitar a comunidade com esclarecimentos sobre múltipla deficiência por meio de atividades gratuitas. “Os resultados do ano foram positivos, já participaram muitos professores e pessoas de diversos municípios, inclusive de outros estados do país”, relatou.

“Esse é um aprendizado para a família, porque geralmente eles criam um bolha, superprotegem, têm vergonha ou medo; e a gente mostra que é possível viver em sociedade e que eles têm direitos como frequentar shopping, ir ao bosque, passear na praça. Mais que a autonomia física, a inclusão social”, concluiu Paula.

“Considerando a complexidade do perfil e a dificuldade de inclusão dessa população na sociedade, esse trabalho vai além dos muros da Instituição! Por ser um público com tantas especificidades ainda desconhecidas da sociedade, auxilia também na qualificação das comunidades para que tenham condições de incluí-los nos diferentes contextos do território”, avaliou Regiane Fayan, líder do Programa MOB.

Momento de celebrar

E para possibilitar um momento de fortalecimento de vínculos que fosse além dos atendimentos e da correria do dia a dia, a equipe realizou um encontro com os atendidos no Parque das Águas, em mais uma atividade no território. “Ocasiões como essa são muito importantes, porque eles também trocam experiências, veem que têm muitas outras família com dificuldades iguais ou maiores. Isso fortalece e melhora relação do usuário”, comentou Paula.

Em um dia ensolarado, em meio a natureza, todos participaram das danças circulares com muita descontração. Logo depois o Papai Noel chegou alegrando ainda mais a tarde das crianças e distribuindo presentes para todos os pequenos. Além do bom velhinho como voluntário, os brinquedos foram doados por uma empresa. E as roupas, bebidas e salgadinhos da festa foram providenciados por Fernanda Andrade, 44 anos, e sua mãe Diva Santos.  

“Há 15 anos resolvi começar esse projeto me vestindo de Mamãe Noel e todo ano escolho uma instituição. Chamo meus amigos para me ajudarem e a gente dá roupas, sapatos, brinquedos, traz comida e bebidas. É uma energia muito gostosa que a gente recebe”, revelou Fernanda. Diva Santos conta que sempre fez  trabalho voluntário, como realizar leitura de histórias em hospitais e servir sopa. “É muito gratificante! Sabe o que é felicidade?! O coração não cabe no peito de alegria quando a gente vê um sorriso deles. Todos são muito carinhosos”, conta ela emocionada , que desde sempre acompanha a filha na atuação voluntária.

2018-12-20T08:40:23+00:0020 de dezembro de 2018|Categories: NOTÍCIAS|Tags: |
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