Conviver com as diferenças e romper barreiras atitudinais 

(por Ariany Ferraz)

Evento para celebrar resultados da segunda edição da Campanha Reveja seus Conceitos promove ações de reflexão sobre diferenças e a inclusão da pessoa com deficiência

Márcia, Ronaldo, Marcus, Pati e Gabi, crianças que possuem diferentes deficiências. Esses são os personagens da “Turma do Bairro”, grupo teatral que com muito bom humor encantou a plateia no evento de celebração da segunda fase da campanha Reveja seus Conceitos, ação que faz parte do Programa Mobilização para Autonomia, que aconteceu na última terça, 26, no Teatro Iguatemi.

Foi com auditório cheio que a Fundação FEAC pode divulgar os resultados positivos da campanha que, veiculada há um mês, já atingiu mais de 800 mil impactos, 212 mil visualizações dos vídeos e mais de 12 mil curtidas, comentários e compartilhamentos que têm feito a campanha ecoar para além de Campinas.

Com o conceito ‘Somos todos diferentes’, a nova fase da campanha conta com diversos personagens que colocam em pauta a inclusão, por meio de situações cotidianas que quebram estereótipos ao mostrar as individualidades com suas questões em comum e também diferenças. Respeitando o lema “Nada sobre nós, sem nós”, que traduz o conceito de participação plena das pessoas com deficiência, a iniciativa evidencia a presença e atuação dessas pessoas através de diversos personagens da vida real que se pronunciam em nome da pessoa com deficiência.

Com brilho no olhar, Vitória, participante da campanha, estava na plateia muito feliz com os resultados. “A participação da Vitória significou muito para todos nós. Eu vi que foi um sonho dela realizado, de mostrar para o mundo que somos todos diferentes e capazes, que podemos participar de tudo como todos. É o que eu falo sempre: ‘a inclusão depende de mim, de você, de todos, se não ela não acontece”, comentou emocionada Valderice Felicio de Campos, mãe da Vitória.

“Existe uma tradição, principalmente midiática, de representar a pessoa com deficiência enquanto um objeto de admiração e inspiração. Isso para o plano prático tem efeitos catastróficos porque a pessoa com deficiência não é vista como potencial amigo, namorado, potenciais concorrentes no mercado de trabalho… A questão do protagonismo da pessoa com deficiência trabalhada aqui foi excelente! Tem coisas que só uma pessoa com deficiência tem propriedade para falar e passar isso para o público”, afirmou o convidado Lucas Lopes, estudante de direito.

Ele foi convidado a subir ao palco porque inspirado pela campanha elaborou uma prosa, que emocionou a todos. “Eu tinha começado a escrever esse texto e tinha deixado de lado. Um dia eu vi a campanha, vi que temos que falar disso e daí tomei coragem de terminar o texto e publicar”, conta Lucas. Após a leitura para a plateia, Lucas explicou que a barreira atitudinal é a mais difícil de ser superada. “Quando dialogo com pessoa com deficiência, uma das coisas que mais nos incomodam é que por mais que exista acessibilidade arquitetônica, a questão da barreira social ainda é muito presente. As pessoas  acham que a simples acessibilidade arquitetônica é a inclusão, quando não é, a inclusão é muito mais do que isso”, observou.

Estiveram presentes mais de 300 pessoas incluindo alunos da Escola Municipal Professor Zeferino Vaz, também conhecida como Caic, além de entidades parceiras da Fundação FEAC como Centro de Apoio e Integração ao Surdocego Múltiplo Deficiente (Cais), Centro Cultural Louis Braille, Instituto Campineiro dos Cegos Trabalhadores (ICCT), Fundação Síndrome de Down, Centro de Educação Especial Síndrome de Down (Ceesd), Centro Educacional Integrado (CEI), Associação para o Desenvolvimento dos Autistas em Campinas (Adacamp), Sorri Campinas, Aldeias Infantis SOS, Associação Pais e Amigos dos Surdos de Campinas (Apascamp), Centro Comunitário da Criança Parque Itajaí (Cecompi) e Guardinha – Associação de Educação do Homem de Amanhã (AEDHA). Contou também com presenças de representantes do Conselho Tutelar, Eliana Rodrigues e da Secretaria Municipal de Educação, Marcus Vinícius de Brito Coelho.

Normal ou diferente?

Com uma provocação para rever conceitos, o evento promoveu desde a sua recepção  uma ação que impactou seus participantes. Havia duas portas, a normal e a diferente, onde as pessoas na recepção escolhiam por qual lado gostariam de acessar o teatro. As que entraram pelo lado ‘Diferente’ passaram por uma porta colorida, com som ambiente alegre e descontraído e foram recepcionadas pela personagem Márcia, que possui deficiência auditiva. Já a porta ‘Normal’ estava trancada, o que surpreendeu aqueles que a escolheram. A surpresa foi ainda mais significativa porque um sinal sonoro seguido de áudio dava o seguinte recado: “Atenção! No evento de hoje não existe normal, reveja seus conceitos entrando pela outra porta do teatro”.

Para Ana Lígia Agostinho, da Comunicação da Fundação Síndrome de Down, que entrou pela porta ‘Normal’ foi um choque de realidade. “A gente foi convidado a parar e pensar que ninguém é normal, não existem padrões, os padrões são os preconceitos que as pessoas criam. No final, somos todos diferentes”, concluiu.

“Desde o início eu conversei com os usuários da SORRI, que possuem deficiência intelectual, e eles se questionaram porque eles não eram normais. E eu disse que nós não somos iguais, somos diferentes. Um deles então percebeu: ‘Ah, por isso a hashtag #revejaseusconceitos, eu tenho que parar e pensar mesmo!’. É muito gostoso falar sobre deficiência de uma forma mais divertida, mais leve, e não com o foco na deficiência em si, mas nas diferenças e características das pessoas”, avaliou Ester Barros, Gerente Executiva da SORRI Campinas.

E assim enfatizaram os personagens, mestres de cerimônia do descontraído evento, “O que nos faz ser gente é a diferença, não a igualdade. Isso é inclusão. Cada ser humano é diferente do outro. Cada um com suas características, capacidades e habilidades. Somos todos diferentes!”.

Do outro lado as inúmeras crianças atentas captavam a mensagem passada de forma natural e em uma linguagem acessível. O evento foi acessível para todos com tradução em libras e audiodescrição.

“É como você reconhece o outro, como você olha com empatia, no sentido de percebê-lo como diferente, mas também como igual, como ser humano e como cidadão. O que eu acho mais importante nesse projeto é como isso chega na escola, porque é o lugar de convívio e de formação humana. Pessoas que representam o futuro e precisam estar empoderadas com essa visão, com essa percepção do diferente, da diversidade e pensar na questão da inclusão”, pontuou Marcus, representante da Secretária Municipal de Educação de Campinas, Solange Villon Kohn Pelicer.

Para Lucas a presença das crianças foi fundamental. “Minha época da escola foi muito difícil e eu fiquei olhando e imaginando se meus colegas de escola tivessem tido acesso a essas informações na infância eu teria tido uma vivência menos tormentosa, mais positiva”, relatou Lucas.

A diretora da escola Professor Zeferino Vaz, Edinéia Marques, compartilhou a satisfação de estar presente junto às crianças. “Eu achei o projeto maravilhoso porque ele vem ao encontro do nosso trabalho na escola, que trabalha as relações da diferença e é fundamental para a sociedade. A parceria com a Fundação FEAC foi essencial porque ampliou esse horizonte. Nós trouxemos todas as turmas que tinham alunos com deficiência e isso foi muito importante para todos, para os alunos aprenderem, ouvirem e interpretarem essas relações diferentes. Além da linguagem ter sido muito boa e adequada para eles”, comentou.

E é assim, com linguagem acessível e de forma divertida, que a Turma do Bairro busca sensibilizar o público em relação às questões das pessoas com deficiência. O grupo promove espetáculos interativos utilizando bonecos que representam personagens jovens com deficiências física, auditiva, visual e intelectual.

Para Alexandre Sousa, ator que interpreta o personagem Marcos, a função do trabalho é educar através da diversão. “O legal é ver como as crianças respondem a essa informação nova. Pois o papel dos personagens é trabalhar com a questão da pessoa com deficiência sem melindres, do que pode ou não falar, ressaltar aquilo que é importante para aqueles personagens de forma natural”, disse.

“Nós sempre quisemos falar de inclusão e sempre quisemos ser ouvidos, mas a sociedade nem sempre está pronta pra isso. Eu acho que a campanha Reveja seus Conceitos fala exatamente o que nós sempre quisemos falar, de uma forma leve. A gente fica pensando o que é ser normal? Ser igual ao outro? Não. É exatamente a diferença que vai fazer com que as pessoas consigam conviver de forma harmoniosa se você souber o que é esse conceito da diferença”, pontuou Maria Olímpia Machado, coordenadora técnica da SORRI Campinas e do programa Turma do Bairro.

Celebrar as diferenças e conquistas

Com uma forte presença digital, por meio da divulgação das peças nas redes sociais e diversos canais online, a campanha recebeu muitos feedbacks positivos e apoio por meio de compartilhamentos de experiências e percepções, por pessoas, instituições e canais sociais. Após apresentadas as peças também foram mostrados os resultados que comprovam o êxito da iniciativa.

“Campanhas como esta, trazem a possibilidade de reduzir estigmas e melhorar a qualidade de vida das pessoas com deficiência, pois temos a oportunidade de levar a sociedade a refletir sobre a questão da diferença, comum a todos. E ver a repercussão da campanha, seja pelas mídias sociais, por feedbacks e com a reação do público que participou do evento  nos mostra que estamos no caminho, e juntos construiremos a sociedade que tanto almejamos, que acolhe e aceita a todos, por meio das relações interpessoais, oportunidades de emprego, lazer, entre outros”, avaliou Regiane Fayan, líder do Programa Mobilização para Autonomia (MOB) da FEAC, que responde pela campanha.

Divulgada desde 2017, destacando que as barreiras existentes não propiciam a inclusão, a campanha continua neste ano provocando a reflexão para fazer com que a população reveja seus conceitos a respeito da pessoa com deficiência. A campanha publicitária surgiu da parceria entre o Programa Mobilização para Autonomia (MOB), da Fundação FEAC, junto a agência SALA. A 1ª fase contou ainda com a FACAMP, Faculdades de Campinas, que na época envolveu alunos do 2º ano do curso de Propaganda e Marketing, coordenados pelos professores da disciplina Propaganda IV, Fábio Wanderley e Leopoldo Azevedo – também sócios na agência SALA.

“A agência tem um grande orgulho de estar desde o começo desenvolvendo a campanha, primeira e segunda fases. A celebração da segunda fase retrata todo trabalho de pesquisa, planejamento para a gente trazer um trabalho que realmente impacte as pessoas”, contou Leopoldo Azevedo, da SALA.

Para além da divulgação nos ambientes digitais, as peças estão sendo veiculadas em outras diversas mídias como rádios, TVs, jornais, revistas e salas de cinema. Alguns veículos gentilmente cederam espaços para divulgação no período de comunicação de massa, entre eles EPTV; Grupo Bandeirantes, Portal Campinas.com; Pró Visão Outdoor; rádios Educativa e CBN, além do Iguatemi Campinas, SIM Media, Flix Media e Cinemark.

Programa Mobilização para Autonomia (MOB)

O Programa Mobilização para Autonomia (MOB) é uma iniciativa da Fundação FEAC que investe em soluções com o objetivo de assegurar a inclusão efetiva das pessoas com deficiência. Se dedica a romper barreiras para que as pessoas com deficiência possam participar da sociedade e exercer plenamente seus direitos.

Confira a campanha:

www.revejaseusconceitos.org.br

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