Conecta Educação alerta para importância de discutir prevenção ao suicídio

(Por Laura Gonçalves Sucena)

 

Eu vejo você! A frase, que resume a importância de se enxergar o próximo, foi ressaltada pela médica Elizete Prescinotti Andrade, especialista em adolescentes e mestre em pediatria, durante a palestra “Suicídio: precisamos falar sobre”. Urgente e atual, a pauta abordada no Conecta Educação, promovido pela Fundação FEAC no último 25 de outubro, reuniu educadores, profissionais da saúde e famílias interessadas no tema.

Para abrir o bate-papo, a líder do Programa Educação da FEAC, Claudia Chebabi, falou sobre os dados do Ministério da Saúde que mostram que o suicídio teve um aumento de 20% no período de 2011 a 2016, entre jovens de 15 a 19 anos. “Este assunto preocupa e realmente precisamos ficar atentos aos números e de forma respeitosa, com um olhar atento, temos que esclarecer e apontar caminhos efetivos para a prevenção”, comentou.

“A escola é um local privilegiado, onde os alunos experimentam relações que podem ser afetivas ou hostis entre pares e com seus educadores. Quando cuidamos desse ambiente e o organizamos para que todos se sintam parte importante desta comunidade, tendo voz e referências positivas, estamos fazendo um trabalho silencioso de prevenção ao suicídio”, completou Claudia.

Já a médica trouxe todos os dados de suicídio no mundo, que apontam o evento como a segunda maior causa de mortes entre jovens de 15 a 29 anos. Dra. Elizete ainda ressaltou que o comportamento suicida do adolescente é, de modo geral, pouco notificado porque muitas das mortes desse tipo são incorretamente classificadas como não intencionais ou acidentais, como por exemplo um acidente de carro ou overdose por drogas ilícitas.

A médica falou que as causas do suicídio ocorrem devido a um desbalanço entre os fatores de proteção e de risco. “Quando se existe o bom relacionamento com a família, o apoio e o adolescente tem boas relações sociais, confiança em si e até mesmo tenha a capacidade de procurar ajuda em horas de dificuldade, os fatores de proteção estão garantidos”, falou.

Os fatores e situações de risco são culturais e sociodemográficos. Muitas vezes são agravados com a presença de eventos de vida negativos que se tornam desencadeadores de comportamento suicida, transtornos psiquiátricos e outros.

Outro fator muito mencionado é o bullying. “Sabemos da relação de situações de bullying com autoagressão não suicida e suicídio. Porém, não sabemos se envolvimento no bullying atua sozinho, ou junto com outros fatores de risco, aumentando a chance de um adolescente se envolver em comportamentos suicidas. Bullying e suicídio são sérios problemas de saúde pública e devem ser prevenidos em igual intensidade”, explicou a médica.

Adolescentes em risco

É preciso que educadores e familiares fiquem atentos e identifiquem os adolescentes que podem estar em risco de suicídio. Alguns sinais são significativos, como tentativas anteriores, abuso de álcool e drogas, transtornos de humor e ansiedade como, por exemplo, depressão, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e até mesmo acesso a um meio de se matar, como armas.

De acordo com a médica, o risco de suicídio é geralmente maior entre pessoas com mais de um fator de risco. “Para indivíduos que já estão em risco, um evento desencadeador que cause vergonha ou desespero pode torná-los mais propensos a tentar o suicídio. Dificuldades escolares, familiares, abusos e até mesmo o bullying podem se tornar um grande problema”, disse Elizete.

Há comportamentos que podem indicar que uma pessoa está em risco imediato de suicídio. Por isso é importante que haja uma ação também imediata caso a pessoa fale que quer morrer ou se matar, que esteja curioso e procure na internet maneiras e que fale sobre se sentir sem esperança ou que não tenha motivo para viver.

“Temos que ficar atentos se uma pessoa falar sobre estar se sentindo preso ou com dor insuportável, se sentir um fardo, se retrair ou se isolar, mostrar raiva excessiva, exibir mudanças extremas de humor, ou e mostrar muito ansioso, agitado e aumentar uso de droga ou álcool”, contou a médica.

Escola pode ajudar

Segundo a médica, é importante que a escola seja uma parceira dos alunos e, também, que busque uma parceria com os centros de saúde, além de ter programas escolares que promovam a conectividade e o bem-estar emocional.

Uma alternativa é ter uma “equipe de crise” que organizará as ações de auxílio aos professores e funcionários, interlocução com a Unidade Básica de Saúde (UBS), Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), Centro de Atenção Psicossocial infanto-juvenil (CAPSI) e com famílias e ainda realize um treinamento com o quadro profissional para identificação de alunos de risco. Também é válido colocar cartazes informativos nas escolas sobre prevenção e onde buscar ajuda.

No caso da morte de algum estudante por suicídio, a médica explicou que o primeiro passo é certificar-se que a notícia seja verdadeira. “Nesta era de mídias sociais e smartphones é fácil que os rumores se espalhem e isso é um problema sério. Com a veracidade da notícia, o melhor a ser feito é mobilizar a equipe de resposta à crise, obter os fatos e manter o ambiente escolar o mais rotineiro possível”, disse.

A equipe também deve ajudar os alunos a lidar com o fato, trabalhar com a comunidade escolar, falar com a mídia, acompanhar as mídias sociais, trazer ajuda externa, se necessário, e até mesmo fazer um memorial. “Outro fator delicado é o contágio do suicídio, ou a Síndrome de Werther (refere-se a um pico de suicídios depois de um suicídio amplamente divulgado). Temos que ajudar os alunos vulneráveis e ​​os que possam estar emocionalmente afetados, como resultado da morte de outro aluno, membro da comunidade escolar ou até mesmo de uma celebridade com quem se identificam, a fim de evitar comportamentos suicidas adicionais e mortes”, explicou Dra. Elizete.

Bate-papo

Durante o encontro, as emoções tomaram conta da plateia. A psicóloga Adriana Rossetti levantou a questão do sofrimento dos adolescentes e jovens que acabam apresentando transtornos alimentares e de imagem. “Temos que trabalhar com esse público e com suas famílias. Sinto que atualmente muitos não estão dando conta de um processo de sofrimento pois são carentes afetivamente das relações primeiras de vida”, falou.

Márcia Cunha, orientadora educacional do Colégio Sagrado Coração de Jesus, refletiu sobre a necessidade das escolas oferecerem um espaço onde possa ser trabalhada a inteligência emocional, para que os adolescentes possam conversar e aprendam a lidar com as frustrações, momentos de angústia e exigências dos grupos. É preciso ter uma união entre educação e saúde para que futuramente não seja necessário falar sobre esse assunto”, ressaltou.

Para a professora mediadora Andrea Bacala, da Escola Estadual Disnei Francisco Scornaienchi, o tema suicídio tem que ser amplamente discutido. “Alguns alunos me procuraram e falaram que muitos adolescentes estavam se  automutilando (também chamado de cutting). Estávamos em setembro e resolvemos fazer o Setembro Amarelo (é uma campanha brasileira de prevenção ao suicídio) e discutimos diversos assuntos. Também fizemos um questionário e observamos que a grande parte dos adolescentes não tem com quem falar dos problemas. Não há uma pessoa para essa escuta atenta. A partir disso, estamos tomando providências para mudar esse cenário”, contou.

Cartilha

O Centro de Valorização à Vida (CVV), entidade que presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio para todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo e anonimato, preparou uma cartilha com orientações sobre o que deve ser feito diante de uma pessoa sob o risco de suicídio. O telefone do serviço é 188 e material completo está disponível no site cvv.org.br

Confira algumas dicas:

1) Converse: encontre um momento apropriado e um lugar calmo para conversar. Ouça a pessoa, sem julgamentos e de mente e coração abertos.

2) Acompanhe: fique sempre em contato com a pessoa. Saiba como ela está se sentindo, o que ela está fazendo e onde ela está.

3) Busque ajuda profissional: incentive a pessoa a procurar ajuda profissional e ofereça acompanhá-la a um atendimento. Em consultórios de psicologia, Unidade de Atenção aos Programas de Saúde (UAPS), CAPS, faculdades de psicologia com atendimento gratuito e em serviços de emergência (UPA 24h, hospitais e pronto socorro).

4) Proteja: se há perigo imediato, não deixe a pessoa sozinha e se assegure de que ela não terá acesso a meios de provocar a própria morte.

Conecta Educação

O Conecta Educação tem como objetivo discutir assuntos relevantes do atual cenário educacional. A iniciativa tem apoio da Fundação Educar DPaschoal e Iguatemi Campinas.

Este ano, o compromisso é trazer para a reflexão, muito além de falas, práticas inovadoras e que têm impacto positivo na área educacional. O Conecta faz parte do projeto Semana da Educação e compõe o Programa Educação, que é uma iniciativa da Fundação FEAC que investe em projetos que contribuem para uma educação pública cada vez melhor, como pilar fundamental para o desenvolvimento da sociedade.

A entrada para o Conecta Educação é gratuita, com vagas preenchidas por ordem de chegada. Certificados de participação são entregues posteriormente ao evento a quem solicitá-los. Mais informações: [email protected]/ (19) 3794 3512. 

2018-11-01T16:40:35+00:001 de novembro de 2018|Categories: NOTÍCIAS|Tags: , |
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