Como prevenir a violência na escola?

(Por Ariany Ferraz)

A violência no ambiente escolar é uma realidade preocupante. Por isso, a 9ª edição da Semana da Educação de Campinas inseriu na programação o evento “Prevenção da violência: abordagem no ambiente escolar”, conduzido pelo Instituto Sou da Paz na Fundação FEAC.

A violência é toda ação intencional que provoca danos. Para preparar a discussão, foram abordados alguns conceitos de violência. “Existem ações  e contextos violentos que devem ser observados nas suas particularidades. Têm violências que você consegue identificar claramente, mas existem outras que estão ocultas nos nossos sistemas de vida. Por exemplo, as violências culturais, como preconceito ou machismo que você acaba aceitando. E as estruturais, como pobreza, onde a vulnerabilidade social acentua comportamentos e impossibilita oportunidades e provocam ainda mais fragilidade”, explicou Beatriz Miranda, assessora sênior da diretoria executiva do Instituto Sou da Paz.

Brigas, transgressões, bullying, ciberbullying, tráfico, ameaças, agressões verbais, físicas, violência sexual, furtos e roubos. A escola está inserida num contexto permeado de violências. Beatriz explicou que é preciso uma avaliação mais aprofundada, entendendo o fenômeno em um contexto mais amplo, suas dimensões socioculturais, buscando as causas e fatores que influenciam essas situações. Ilustrado em forma de iceberg para exemplificar uma situação de violência, na ponta é possível ver as agressões verbais e físicas e abaixo, imerso, estão as causas não visíveis, como o machismo, preconceito, falta de afetividade, intolerância, racismo, pobreza e autoritarismo.

“O que sugerimos para pessoas que trabalham em comunidade escolar é a capacidade de analisar com mais profundidade o que está acontecendo pra fazer um olhar mais ampliado sistemicamente, aí você consegue mais respostas e vai para o diálogo, para a construção conjunta, dar para as pessoas um empoderamento e tirá-las do círculo de violência”, observou Beatriz.

“Consideramos fundamental as escolas se envolverem e se aproximarem deste tema da violência. O quanto antes este assunto entra na pauta, maiores as possibilidades de diminuir casos de violência nas escolas. Acreditamos que o diálogo, a informação sobre responsabilidade coletiva, consequências e danos são  elementos importantes para que todos compreendam que este fenômeno contribui de maneira negativa para o ambiente escolar.   Desta maneira,  o programa busca desenvolver esforços que mitigam os impactos da violência”, explicou Lincoln Moreira, líder do Programa Enfrentamento a Violências da Fundação FEAC, iniciativa que aborda a temática e busca promover a cultura de respeito, empatia, tolerância e paz.

Atento, o público em sua maioria formado por representantes de instituições de ensino e organizações da sociedade civil, se identificou com muitas situações. “Um dos maiores problemas que as escolas enfrentam são as situações de violência e é sempre bom ouvir pessoas que trazem novas ideias e forma de abordarmos isso nas nossas escolas”, revelou Maria José Lima, diretora da regional Campinas Oeste.

Promover diálogos e construir

“Eu achei super importante a abordagem, porque a gente tem vivido isso. Com cada um atuando no seu papel a gente vai conseguir diminuir esse índice de agressividade, tanto na escola como na família. E a gente vai procurar novas práticas na nossa escola de educação infantil”, contou Cristina Fagundes, professora.

Desvalorização do professor, tráfico e violência policial, doméstica e privações de direitos. Os obstáculos encontrados podem ser diversos. As ações devem pensadas a curto, médio e longo prazo. Foram indicados alguns caminhos como pactuar regras e responsabilidades, restaurar relações, intervir para minimizar danos, restituir danos com sanções, acionar a rede de proteção e planejar projetos a longo prazo.

“Como manejar conflitos me parece ser não só o problema como a solução para a questão da violência escolar. Situações de violência geralmente começam num desacordo. É uma questão que a gente dá pouca atenção, de pensar nas questões de desenvolvimento de competências socioemocionais. Esse é um campo muito fértil que a escola tem potencial pra poder ensinar a garotada a lidar com isso”, avaliou  Rodrigo Pereira, gerente da área de prevenção do Instituto Sou da Paz.

É o espaço de diálogo criado pela escola que pode ser um grande aliado na prevenção. A escola deve incentivar tais ações e pode ainda promover a reflexão, a comunicação não-violenta, gestão de conflitos, reconhecimento da diversidade, aproveitar melhor o papel do Professor Mediador Escolar e Comunitário (Pmec), entre outras. “Para mediação de conflito, para um diálogo não violento, a gente precisa de muita escuta. Entender, reconhecer os processos que são do outro, análise da situação de violência para pensar na proposta conjunta”, indicou Beatriz.

Também é preciso destruir imaginários sobre os alunos e frear a naturalização da violência, pois os preconceitos e conflitos acabam sendo considerados ‘normais’ por serem corriqueiros. Sobre os desafios, foram apresentadas algumas dificuldades que envolvem desde as regras, relação até a infraestrutura, como práticas que criam obstáculos, o uso de estratégias repreensivas, senso comum com falta de sistematização e avaliação de políticas e programas, falta de gestão, recursos e qualificação, e ausência de articulação  intersetorial e interdisciplinar com outras organizações. “A questão da violência é responsabilidade de todos nós. Como é um fenômeno muito complexo, porque vários fatores influenciam, existem também várias pessoas responsáveis para ajudar a inibir a violência”, concluiu Beatriz.

Foram apresentados casos de experiências do Instituto com os projetos ‘Grêmio informa’, Construindo Pontes e o caso Brasilândia. Assim foram compartilhados pilares estratégicos e modelos de atuação, trabalhando medidas socioeducativas, promovendo ações integradas com interlocutores e interessados, envolvendo judiciário, polícia, escola, família, rede intersetorial, adolescentes, entre outros.

“É uma realidade nas escolas e a gente precisa entender o porquê dessa violência. Talvez esse jovem esteja sinalizando que essa escola não dialoga com ele. Precisamos de um processo de escuta. Dentre as experiência relatadas, a dos Grêmios foi muito interessante, pois incentiva o protagonismo juvenil, dá voz aos jovens e cria uma oportunidade de poderem fazer a escola um pouco do jeito que eles esperam, de serem reconhecidos enquanto pertencentes ao espaço. A partir desse sentimento de pertencimento mudam-se as relações e, consequentemente, a gente minimiza a violência”, explica Thaís Righetto, técnica responsável pelo projeto Semana da Educação do Programa Educação da Fundação FEAC.

“Eventos como esse constroem pontes, são facilitadores, pontos de aglutinação, de construção entre pessoas, posições e instituições. A escola deve reconhecer o seu potencial aglutinador. De fato, ela é muito transversal na nossa organização social e deve trazer para perto de si diversos temas”, disse Rodrigo, parabenizando o evento.

Instituto Sou da Paz

Uma Organização Não Governamental que há mais de 15 anos tem o objetivo de reduzir a violência no Brasil. Sua missão é contribuir para a efetivação de políticas públicas de segurança e prevenção da violência que sejam eficazes e pautadas pelos valores da democracia, da justiça social e dos direitos humanos.

Programa Enfrentamento a Violências

É uma iniciativa da Fundação FEAC que investe na mitigação dos impactos das violências e no enfrentamento para romper os ciclos que as perpetuam com objetivo de promover o bem-estar e a cultura de respeito, empatia, tolerância e paz.

Semana da Educação

A Semana da Educação é um projeto do Programa Educação da Fundação FEAC. A iniciativa pretende mobilizar a sociedade para o debate sobre os diversos temas da educação energizá-la em prol de uma educação pública cada vez melhor. A iniciativa conta com os patrocínios da Fundação Educar DPaschoal e Iguatemi Campinas. Com o tema “Conectar educação, superar desafios”, a edição 2018 promoveu mais de 26 atividades gratuitas entre palestras, oficinas, exposições, mesas redondas, apresentações culturais e outras.

Confira material da Unesco sobre a ‘Violência nas escolas’:

http://unesdoc.unesco.org/images/0012/001257/125791porb.pdf

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