Casa Madre aposta no vínculo entre mãe e filho desde a gestação

(Por Laura Gonçalves Sucena)

Durante a gestação, muitos são os medos e anseios que passam pela cabeça da mãe, afinal é um período de mudança. Entre as preocupações estão a saúde da criança e como fazer para lidar com essa nova etapa da vida, especialmente em locais de alta vulnerabilidade social. Pensando nisso, a AMIC Monte Cristo, criou o projeto Casa Madre, que tem como foco atender gestantes oferecendo a oportunidade da criação de vínculo entre mãe e filho.

A ideia da Casa Madre é centrada na construção do vínculo com a criança, que é estabelecido gradativamente, preferencialmente, desde a gestação, no ambiente intrauterino.  O vínculo é de importância vital para a criança que está se formando, pois ela precisa se sentir desejada e amada para ter um desenvolvimento saudável.

De acordo com a idealizadora da Casa Madre, Ana Ariel Monteiro, a iniciativa surgiu a partir do Projeto Enxoval, que garantia às mães, no último domingo de cada mês, uma cesta com alimentos e, ao final da gestação, o enxoval da criança. “Porém percebemos que as grávidas queriam mais. Elas precisavam de um espaço de acolhimento, queriam aprender a fazer o enxoval e, também, um tempo para elas se conectarem com seus filhos”, explicou.

Para Ana Ariel, o espaço que atende as grávidas às quartas-feiras é de amor e confiança. “Aqui não há julgamentos. Queremos que as mulheres curtam a maternidade. Muitas chegam aqui assustadas e nem sabem se querem ficar com as crianças, mas aos poucos, com a criação do vínculo, isso se transforma, pois a relação de troca com o feto é fundamental para a formação e fortalecimento do vínculo materno. É uma forma de garantir a saúde e o bem-estar do bebê”, contou.

Para Denilze Ricciardelli, assessora técnica da Fundação FEAC no âmbito do Programa Primeira Infância em Foco (PIF), a alimentação balanceada e o acompanhamento médico oferecidos às gestantes também são fundamentais para assegurar a saúde e o desenvolvimento do bebê. “Logo no início da gestação o cérebro do bebê começa a desenvolver-se formando as células nervosas, que posteriormente serão os neurônios.  Durante a gravidez, o feto produz milhões de células neurais, por isso, a importância dos estímulos, como a mãe cantar, falar, colocar música para seu filho, ainda quando ele está na barriga para impulsionar a sua inteligência”, assegurou.

A AMIC Monte Cristo recebe apoio institucional no âmbito do PIF, iniciativa da FEAC que investe em esforços para promover o desenvolvimento da primeira infância com objetivo de assegurar que todas as crianças tenham desenvolvimento adequado à sua faixa etária.

Aprendendo aos poucos

Com pouco mais de um ano de vida, a Casa Madre é um espaço de escuta das mulheres. “Queremos saber o que elas precisam, o que querem e auxiliá-las para que se forme um vínculo entre as mães e os filhos”, explicou a coordenadora Ana Lídia Rodrigues.

No início, a Casa recebia as mulheres grávidas e trabalhava com a confecção de kits de higiene para as crianças. “Acreditamos que esse tempo que a mulher está aqui fazendo trabalhos manuais para seus filhos é também uma forma de criar o vínculo. Porém, percebemos que elas queriam mais e daí iniciamos uma série de outras atividades”, disse Ana Lídia.

Além dos cuidados com a saúde, as profissionais voluntárias da Casa ensinam sobre diversos assuntos como alimentação saudável, cuidados com o bebê, vacinas, remédios, perigos com bebidas alcoólicas e drogas, relação sexual durante a gestação, organização do quarto do bebê, aleitamento materno, hora do banho, sono do bebê, entre outros.

Segundo Ana Ariel, a intenção é que a Casa Madre possa crescer e se espelhar no serviço oferecido pela Casa Angela (se der colocar o link http://www.casaangela.org.br ), de São Paulo. “Quem sabe no futuro, contando com o auxílio de voluntários e patrocinadores, podemos nos transformar num centro de parto humanizado, oferecendo assistência humanizada ao parto natural, em ambiente seguro, acolhedor e respeitoso, como é a Casa Angela. Nossa ideia é que as gestantes recebam acompanhamento de uma equipe especializada em atendimento humanizado e sejam preparadas para vivenciarem a experiência do parto com autonomia, amor, liberdade e respeito”, disse Ana Ariel.

Conversinha boa

Natali de Melo descobriu que estava grávida com 14 anos e com a notícia veio também o medo. “Eu morava em Maceió/AL e minha mãe, que já morava em Campinas/SP, me trouxe para cá. Eu estava muito perdida, sem saber o que fazer, e quando vim pra Casa Madre, o pessoal me acolheu e me orientou. Estava com anemia e aos poucos fui me cuidando e todos me ajudaram muito. Aprendi muita coisa, desde fazer algumas peças do enxoval até a me alimentar melhor”, contou.

Casos como o de Natali são comuns, por isso a Casa Madre procura orientar as gestantes no que for preciso e acolhê-las com muito amor e carinho. “Nosso maior papel é dar amor e fazer com que a futura mãe ame seu filho. Os medos existem, especialmente na gravidez, mas quando há orientação tudo fica mais fácil”, relatou Ana Ariel.

Marcela Zanatta, enfermeira obstetra da Unicamp e voluntária na AMIC, conta que conversar com a criança quando ela ainda está na barriga é muito importante para fortalecer o vínculo saudável e de qualidade.  “O bebê quando escuta a voz da mãe se sente confortável com suas palavras de carinho e atenção. Ainda que não possa compreendê-las, ele sabe o sentimento que carregam e se sente aceito e amado. Acariciar suavemente a barriga quando se percebe que ele está agitado também é uma forma de fortalecer esse vínculo. As crianças que se sentem desejadas desde a gestação nascem mais confiantes”, afirmou.

A enfermeira também falou da importância de se fazer o pré-natal. “Fazemos um trabalho em conjunto com o Centro de Saúde do bairro e alertamos as mães sobre a importância desse acompanhamento médico que tem o objetivo de manter a integridade da saúde das mães e das crianças. Acompanhamos os exames laboratoriais realizados e aqui ainda fazemos o sonar (escuta do coração da criança), medições e pesagem e controle da pressão”, informou.

Com 18 anos, Grace Alves, mãe da Cecília de 8 meses, chegou na Casa Madre para aprender a lidar com sua futura filha. “A experiência foi muito gratificante. Além de aprendermos a fazer o enxoval, ficamos sabendo da importância de conversarmos com nossos filhos, mesmo antes deles nascerem. Também recebemos dicas sobre alimentação e como vai ser o parto”, disse.

Todos os cuidados dedicados pela Casa Madre às mulheres que estão grávidas prometem contribuir para o desenvolvimento infantil dos pequenos que chegarão ao mundo em breve.

Saiba mais: https://www.feac.org.br/primeirainfanciaemfoco/

 

2018-10-29T09:23:50+00:0029 de outubro de 2018|Categories: NOTÍCIAS|Tags: |
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