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Talentos que precisam de oportunidades para prosperar

Talentos que precisam de oportunidades para prosperar

(Por Ariany Ferraz)

Em casa, na escola, no trabalho e nas atividades sociais, projetos da Adacamp auxiliam crianças e jovens a desenvolverem aptidões sociais e laborais.

Dia 2 de abril é o Dia Mundial da Conscientização do Autismo, denominado Transtorno do Espectro Autista (TEA). O Transtorno engloba diferentes síndromes com três características fundamentais: dificuldade de comunicação, socialização e padrão de comportamento restritivo e repetitivo. Para que as pessoas com TEA possam desenvolver suas capacidades e exercer plenamente seus direitos é importante que toda a sociedade entenda e contribua de forma positiva e significativa para esse processo de inclusão.

Esse é um trabalho que a Associação para Desenvolvimento de Autistas de Campinas (Adacamp) já faz por meio de diversos programas que buscam, por exemplo, promover a conquista da autonomia e o convívio social. Dois deles em especial, o Programa “Alta Assistida: um Olhar para além da Instituição” e “Inclusão – Mercado de Trabalho”, são iniciativas que fazem parte do Programa Nacional de Apoio à Atenção da Saúde da Pessoa com Deficiência (Pronas/PCD), por um período de dois anos – 2016/2018. A Adacamp é entidade parceira da Fundação FEAC que recebe apoio institucional via Programa MOB – Mobilização pela Autonomia.

“Atualmente vivemos o paradigma da inclusão e os dois programas da Adacamp demonstram a importância do atendimento para além dos muros da instituição, apoiando e estimulando que a sociedade acolha todos em suas diferenças, sem focar nos modelos e padrões que conduzam à discriminação. A convivência é o que vai potencializar que passemos do paradigma da integração para de fato vivenciar o paradigma da inclusão”, destacou Regiane Fayan, líder do MOB.

A importância de um novo olhar

Com um trabalho terapêutico para autonomia da pessoa com TEA, o Programa “Alta Assistida: Um Olhar para Além da Instituição” prepara os usuários da Adacamp para o convívio social e execução das atividades cotidianas com independência, contando com a colaboração da sociedade e da família. Podem participar crianças e adolescentes de 07 a 17 anos, sem associação com o déficit intelectual, e que estejam alfabetizadas e frequentando a escola regularmente. São atendidas em média 20 pessoas que contam com acompanhamento terapêutico através de uma equipe multidisciplinar composta por terapeuta ocupacional, psicólogo e assistente social.

A maioria das dificuldades enfrentadas pela pessoa com TEA pode ser retrabalhada, como por exemplo a capacidade de empatia, comunicação, relacionamento, repertório social e autoconhecimento. A proposta do olhar além da instituição é poder trabalhar todas essas questões em outros ambientes, em casa, na escola e nos demais espaços de convívio social. A partir da necessidade identificada, as terapias podem ser individuais ou em grupo.

Para isso são utilizadas duas metodologias como o Currículo Funcional Natural que trabalha o aprendizado no ambiente natural com situações funcionais e práticas, além da Análise Aplicada do Comportamento que promove a identificação e compreensão das variáveis que afetam o repertório de indivíduos autistas, ao inibir comportamentos inadequados favorecendo os adequados através de reforçadores (recompensas). Assim, com intervenções comportamentais é possível desenvolver respostas adaptativas mais rápidas e uma maior integração desses jovens.

Na escola, a perspectiva maior é a inclusão social. O terapeuta identifica as necessidades no ambiente escolar e possíveis adaptações estratégicas para que um acompanhante terapêutico possa conduzir a implementação dessas novas práticas e auxiliar a criança nesse processo de aprendizado. Parte do projeto é também capacitar as equipes de educadores. Apesar de muitas escolas adaptarem o currículo, ainda são muitos os desafios para que exista uma maior aderência dessas instituições pensando no que é funcional e eficaz para melhoria do aprendizado das crianças com TEA. “É preciso observar cada um com suas necessidades específicas e tentar dar o suporte necessário para aquela criança. Precisa desenvolver olhares diferentes, porque cada um tem suas peculiaridades”, esclarece Matheus Augusto, acompanhante terapêutico.

Colaborar para inserção social é um viés chave do programa. São realizadas diversas atividades adequadas à idade dos jovens, desde teatro, shows musicais, restaurantes, piquenique, boliche, atividades físicas, entre outras. “Entre os diferentes aprendizados, um dos maiores desafios envolvem as aptidões sociais. Por isso temos uma proposta de trabalho terapêutico extramuros, porque se ficarmos restritos apenas ao espaço da instituição eles acabam perdendo oportunidades de interação social”, ressalta Matheus.

Talentos que precisam de oportunidades

O Programa Inclusão – Mercado de Trabalho atende adolescentes com mais de 16 anos a serem inseridos no mercado de trabalho. Para orientar o jovem, a família e a empresa, o programa desenvolve ações funcionais, laborais e sociais. O acompanhamento do jovem é feito desde a elaboração de currículo, instruir sobre postura, etiqueta, documentação, seleção, admissão e construção de uma rotina. “A partir do momento que você consegue estruturar uma rotina e eles se identificam com aquilo, tornam-se funcionários extremamente dedicados”, relata Carolina De Carlo Meza Felisberto, terapeuta ocupacional.

O trabalho é um caminho para a construção de uma identidade profissional e pessoal. Atualmente as pessoas com TEA têm direitos iguais aos das demais pessoas com deficiência (lei n° 12.764/12) e assim a Lei de Cotas n°8.213/91, que exige que empresas com mais de 100 funcionários incluam essas pessoas por meio do trabalho em igualdade de oportunidades, também beneficia o público autista.

O trabalho com a iniciativa privada é fundamental para que se amplie a inclusão destes jovens. O Programa da Adacamp envolve as empresas mobilizando-as para a participação, acompanhando os primeiros passos daqueles que são inseridos no mundo do trabalho, promovendo palestras de orientação e escolhendo um mediador, que pode ser chamado de referência ou coach, para que esse colaborador possa apoiar e auxiliar o jovem no dia a dia e também a instituição, informando sobre o progresso e necessidades de adaptação.

O terapeuta ocupacional faz ainda visitas frequentes à empresa, para alinhar os passos e demandas, desde trabalhar com comportamentos inadequados e outras dificuldades, buscando solucioná-las. “A gente costuma falar que o nosso trabalho é ainda mais intenso quando eles já estão trabalhando, porque aí que as demandas começam a aparecer mais”, completa Carolina.

O importante é saber trabalhar as diferenças cognitivas. “Eles têm paciência, rotina, foco, são criteriosos e gostam de situações bem estruturadas” avalia Roseli Cruz Guirao, coordenadora pedagógica da Adacamp. A neurodiversidade trabalha o conceito de que existem diferenças neurológicas que devem ser reconhecidas e respeitadas como qualquer outra variação humana, tratando o autismo não como uma doença, mas como uma parte da sua identidade. As pessoas com TEA podem se destacar em habilidades de diferentes naturezas, como visuais, artísticas, musicais, de memória, entre outras.

Identificar de forma adequada os interesses e habilidades influencia diretamente na produtividade, para que exista satisfação e rendimento adequado. Existe um trabalho atencioso e dedicado com a identificação das aptidões dos jovens para que sejam valorizadas as suas potencialidades e que suas habilidades estejam em consonância com a vaga pretendida, para não gerar frustração entre as partes. Para isso é feita uma avaliação funcional por meio de uma equipe da Adacamp composta de assistente social, médico neurologista, psicólogo, terapeuta ocupacional e acompanhante terapêutico. “Em alguns casos, como tecnologia da informação, muitos não têm formação acadêmica na área, mas percebemos que eles têm aptidão e que desenvolveram um conhecimento autodidata, por exemplo”, comenta Carolina.

A instituição percebe que recentemente algumas empresas estão começando a valorizar mais esses talentos e buscando promover uma inclusão diferente, como é o caso de um dos parceiros, a CI&T. Através de um colaborador com autismo, a empresa resolveu despertar o interesse das suas equipes e buscou mobilizar os colaboradores em torno do tema com uma ação interna sobre Neurodiversidade. “Do interesse em se aproximarem das instituições que atendiam pessoas com transtorno do espectro autista surgiu a parceria com a Adacamp, resultando no evento “A hora do Código” com intuito de estimular o interesse dos jovens pela tecnologia”, relata Tamara Barban, analista de sustentabilidade na CI&T.

Assim começou a atuar o Instituto CI&T, projeto com objetivo de proporcionar para as pessoas com deficiência, crianças e adolescentes, oportunidades de construir carreiras de conhecimento dentro da área de tecnologia, explica Ana Paula Fraga, líder da área de sustentabilidade na CI&T.

Na etapa seguinte foi realizado um curso de Tester e dois jovens talentos se destacaram. Logo depois participaram de entrevistas para vagas de Tester e foram contratados. Leonardo Pelegrini, 21 anos, antes trabalhava como empacotador em supermercado e desejava uma nova oportunidade. “Acho que é bastante importante para as pessoas com deficiência que elas possam ter uma vaga no mercado de trabalho. Meus colegas são bem compreensivos com a minha condição, eles não me subestimam nem me superestimam, eles me tratam como qualquer pessoa”, confessa Leonardo.

Marcos Castro, 23 anos, sempre teve interesse por tecnologia desde pequeno, curioso com relação a games, aprendeu outros idiomas por conta própria. No dia da entrevista, fez a seleção em inglês para trabalhar em um projeto internacional. Antes era assistente operacional em uma farmácia e considerava sua função bastante braçal e fisicamente desgastante. “Aqui a carreira é bem desafiadora, cheia de coisas novas e assuntos diferentes. Estou me acostumando com a rotina de tester, mas eu pretendo dar uma olhada na área de desenvolvimento/programação”, conta, com planos para o futuro.

Na função que atuam ambos têm a missão de garantir a qualidade do serviço e as principais habilidades necessárias para vaga são concentração, detalhismo, foco e repetição. Além de executarem com excelência suas tarefas, foram também identificados muitos progressos em relação a socialização, um grande passo para o repertório social destes jovens.

Entre as diversas atuações dos jovens atendidos pela Adacamp existem ocupações como atendimento, repositor, chef de cozinha, empacotador, tester, analista de tecnologia da informação, desenhista, designer gráfico e muitos outros. Hoje a Adacamp tem o apoio de parceiros diversos, desde hipermercados e empresas como Arcor, Anglo Ática, Rede Droga Raia/ Drogasil, C&IT e Gió Cucina. A entidade faz regularmente pesquisas de satisfação com a família, os atendidos e as empresas para aperfeiçoar o trabalho e, principalmente, entender as expectativas dos jovens em relação ao emprego, sonhos, necessidades e crescimento pretendido. A Adacamp tem a expectativa de contar com outras empresas que possam apoiar o Programa e de atrair jovens com TEA dispostos a fazer parte dessa iniciativa.

Sobre o Programa MOB

O Programa Mobilização para Autonomia (MOB) é uma iniciativa da Fundação FEAC que investe em soluções com o objetivo de assegurar a inclusão efetiva das pessoas com deficiência. Se dedica a romper barreiras para que as pessoas com deficiência possam participar da sociedade e exercer plenamente seus direitos.

Mais informações:

Associação para Desenvolvimento de Autistas de Campinas (Adacamp) –  www.adacamp.org.br