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Cresce o número de pessoas com autismo no mercado de trabalho

Cresce o número de pessoas com autismo no mercado de trabalho

 

(Por Claudia Corbett)

Eles têm alto índice de concentração, foco e objetividade. Possuem habilidades específicas em organização, facilidade no cumprimento de regras e normas, são pontuais e responsáveis. Estes são alguns dos motivos que têm levado cada vez mais pessoas autistas a serem absorvidas pelo mercado de trabalho.

“Desde dezembro de 2012, a pessoa com TEA (Transtorno do Espectro Autista) é considerada pessoa com deficiência, para todos os efeitos legais, conforme estabelecido pela Lei n° 12.764/2012. Portanto, é relativamente nova a inclusão dessas pessoas no mercado de trabalho por meio da Lei de Cotas, um mecanismo afirmativo para garantir a equidade de pessoas que ao longo da vida sofrem preconceitos e desigualdades em nossa sociedade”, ponderou a assessora técnica do Departamento de Assistência Social da Fundação FEAC, Regiane Costa Fayan.

Há um ano, a Associação para o Desenvolvimento dos Autistas de Campinas (Adacamp), entidade parceira da Fundação FEAC, realiza, por meio do Programa de Inclusão – Mercado de Trabalho, acompanhamento e atendimento a jovens e adultos que possuem o diagnóstico de TEA, com perfil de alto funcionamento. Esta iniciativa, conquistada por intermédio do Programa de Apoio à Atenção da Saúde da Pessoa com Deficiência (PRONAS/PCD) visa, de maneira gratuita, capacitar, encaminhar, acompanhar e monitorar mais pessoas com TEA para inserção no mercado de trabalho, com ações para desenvolver as habilidades funcionais, sociais e laborais. E ainda promove, nas empresas, orientação sobre o autismo e as características do indivíduo inserido, para estimular e adequar o comportamento e contato social, para uma melhor adaptação do funcionário.

“Uma das características do Transtorno do Espectro Autista (TEA) é a falta de sociabilidade. Mas, se o ambiente da empresa estiver preparado para recebê-lo e os colaboradores abertos para conhecer o autista sem preconceito, o resultado será positivo para ambos os lados”, frisou a coordenadora geral da Adacamp, Roseli Cruz Guirao.

Gabriel Franzine Marciano, 21 anos, é um dos exemplos de sucesso dos esforços da Adacamp. Chegou ao restaurante onde trabalha na cidade de Valinhos/SP por meio de um anúncio de jornal visto pela equipe técnica da instituição. “Eles me ligaram e perguntaram se a vaga poderia ser preenchida por uma pessoa com TEA, formada em gastronomia. Claro que eu concordei. Só avisei que a entrevista seria igual para todos os outros candidatos”, relatou o chef Márcio Viggiano. Gabriel trabalha como assistente na cozinha do Gió Cucina há oito meses. Segundo o chef, a especialidade dele é confeitaria, mas assume também a correria do dia a dia junto com a brigada da cozinha. Uma das sobremesas do cardápio leva a assinatura de Gabriel. O ‘Quenelle de Chocolate com Terra de Cacau’, uma mistura de chocolate, uísque e caramelo. “Ela foi criada para um menu exclusivo de Páscoa. Foi o resultado de pesquisas e de experiências de algumas técnicas e sabores”, explicou o assistente. Ele tem planos, para daqui um ano e meio, estudar fora do Brasil. A escola já está definida, Le Cordon Bleu, na cidade de Ottawa, no Canadá, onde Gabriel irá se especializar em confeitaria.

 Programa de Inclusão

O programa é realizado por uma equipe formada por uma coordenadora, uma assistente social, uma psicóloga, uma terapeuta ocupacional e dois assistentes terapêuticos. A preparação é feita antes dos atendidos assumirem as vagas no mercado de trabalho, desde a preparação para a entrevista até o que enfrentarão quando já empregados, como receber ordem, seguir regras, e saber lidar com problemas e conflitos que venham a acontecer. Aborda também sobre como irão gerenciar o salário que recebem. “Eles não sabem como usar o dinheiro, pois não têm repertório social. Para mudarmos esse cenário realizamos passeios, saídas para compras ou para tomar lanche. Estas vivências contribuem muito”.

A equipe dá suporte também quando eles já estão inseridos no mercado de trabalho, pois é justamente nesta fase que podem aparecer as dificuldades. Dentro de cada empresa há uma pessoa destacada para ser a referência deste novo trabalhador, que será também o canal de comunicação com a entidade. “São eles que nos atualizam sobre as evoluções ou sobre os problemas, quando ocorrem, para que possamos solucioná-los com rapidez”, observou a terapeuta ocupacional, Carolina De Carlo Meza Felisberto. E esta missão é com os acompanhantes terapêuticos que se deslocam até o local de trabalho e avaliam a demanda que será trabalhada em equipe. Caso o problema tenha a ver com a postura dos demais funcionários, é realizada uma readaptação com os colaboradores da empresa. “Se percebemos que a empresa não está entendendo o que é o autismo, é feita uma capacitação”, explicou a terapeuta ocupacional.

A Adacamp atende, neste projeto, pessoas com TEA de Campinas e região. Na cidade, por ser referência no atendimento a autistas, a entidade tem parceria com empresas como Extra Hipermercados, Rede Dia de Supermercados, Gió Cucina (restaurante), Rede de Farmácias Droga Raia, Anglo Ática (editora), OutBack Steakhouse (restaurante), entre outras. “Sentimos dificuldade em conseguir oportunidades para os nossos atendidos de outras localidades, pois as empresas das outras cidades não conhecem o nosso trabalho”, destaca a terapeuta ocupacional do Programa.

Saiba Mais: www.adacamp.org.br